terça-feira, 24 de março de 2015

Passageira



- É assim que nos lidamos com solidão! Primeiro percorremos estradas perdidas atrás de noites inteiras com bebidas e intenso rock and roll! – assim era Stan, um maluco hippie que conhecia a morte mais do que ninguém, mais do que seu próprio inconsciente. Os sonhos, esses nunca se cansavam de atormentá-lo. Às vezes eram lutas com assassinos, acidentes com viajantes na rodovia... simplesmente não ligavam, apenas controlavam-no com suas imagens psíquicas, ele dizia. O que realmente impressionava era o simples fato de existir tamanha quantidade de colegiais naquele pedacinho da América. A em um mesmo posto de combustível, justo o que trabalhava Stan, todos os verões. Todos os anos nessa mesma época, adolescentes percorriam o país atrás de aventuras com seus carros lotados de cervejas e colegiais. Queriam aproveitar, já que a estrada ficava ao lado e... Verdade ou não, sempre estavam lá para ouvirem os conselhos do maluco Stan, que era muito observador quando o assunto era motocicleta, cigarros e as besteiras que dizia antes de seguirem viagem. 
- É! A mulherada se amarra nisso! Fascinavam-se até com minha timidez! Não... mas se tem algo afrodisíaco e com sabor de veneno é o álcool! – continuou com seu amplo raciocínio. – Se você está encarregado das responsabilidades, então estes são seus elos comunicativos! - foi como acontecera antes e em todas as vezes que pediram os conselhos, seguiram viagem, mas sem expectativas. 
- Posso? – disse ela entre um sorriso embaraçoso e o gesto de pegar a cadeira. A cerveja não descansou muito tempo sobre aquela velha mesa encardida em que Stan deixava as ferramentas. – Vejam só! o lobo solitário! – era assim que ela me chamava. Nunca perguntei o motivo, mas ela sabia, sabia de algo que lá no fundo surgia como um futuro vazio e solitário. 
- Amy! Como vai a amiguinha?
- Ainda precisando de alguns reparos, mas... a gente se entende! Nesse momento Amy já observava tudo a sua volta. A cerveja quente de Stan, o óleo derramado dos carros na oficina e até a cara sorridente daquele maluco que não a via a um bom tempo. 
-É! Eu sei! – Amy era de uma dessas tribos das montanhas a quem chamavam de feiticeira, mas seu pai, o grande sábio é quem realmente conhecia os poderes dos deuses antigos.
- E os sonhos? Já procurou respostas? 
- Disseram ser besteira! - ele sabia que Amy era a única que se importava, só não acreditava que ela fosse mencionar em premonições. 
 Você acreditava em premonições? 
- Stan, me escuta! Existe uma lenda antiga de um guerreiro...
- Isso não vai acontecer!
- Olha... a única forma de quebrar o feitiço é encarando a própria morte! É a única saída que você tem! – já num tom severo. – Olha pra você! Um hippie que diz ser paz e amor, mas não segue o próprio caminho. A vida é bem mais que um postinho de gasolina isolado de tudo, você mesmo sabe e eu também sei que desde aquele acidente com a Cindy você nunca mais foi o mesmo! – se os pesadelos fossem uma espécie de aviso ele jamais poderia descartá-los, mesmo se os conselhos tivessem vindo do senhor dos feitiços, pai dos indígenas. 
Uma linda moto verde encheu os olhos daquele lunático quando observou quem estava nela, ao contrário do que se pensava, Amy tinha duas casas e não só uma com o seu povo. Voaram pelo deserto que mais parecia um deserto naquele negrume que fizera a lua, uma escuridão que os levava e ao mesmo tempo os protegia de qualquer desânimo causando uma bela sensação de liberdade. As estrelas e os corpos insanos como os cabelos negros de Amy, aquela também maluca imprevisível. Acho que foi a única vez que haviam lembrando de um sorriso. Foi lá que Amy o deixou sem revelar qual premonição os havia alcançado pela estrada.




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