quinta-feira, 7 de junho de 2012


Anjos ou Deuses


Anjos ou deuses, sempre nós tivemos, A visão perturbada de que acima De nos e compelindo-nos Agem outras presenças. Como acima dos gados que há nos campos O nosso esforço, que eles não compreendem, Os coage e obriga E eles não nos percebem, Nossa vontade e o nosso pensamento São as mãos pelas quais outros nos guiam Para onde eles querem E nós não desejamos.

Ricardo Reis 

Elogio do Alexandrino



Asclepiádeo verso: à evolução do poema 

Das sestas, cadenciar d'altas antigüidades, 
já porque bipartido em fúlgidas metades 
Reata em conjunção opostos de um dilema, 
E já por ser de gala a forma do matiz 
Heleno na escultura e lácio na linguagem 
Reacesda, de Alexandre, em fogos de Paris: 
Paris o tom da moda, o bom gosto, a roupagem; 
Que desperta aos tocsins, galo às estrelas d'alva, 
Que faz revoluções de Filadélfia às salvas 
E o verso-luz, fardeur das formas, de grandeza, 
o verso-formosura, adornos, lauta mesa 
Ond' tokay, champanh', flor, copos cristal-diamantes
Sobrelevam roast-beef e os queijos e o pudding
Porém, mens divinior, poesia é o férreo guante: 
Ao das delícias tempo, o fácil verso ovante, 
o verso cor de rosa, o de oiro, o de carmim, 
Dos raios que o astro veste em dia azul-celeste; 
E para os que têm fome e sede de justiça, 
O verso condor, chama, alárum, de carniça, 
D'harpas d'Ésquilus, de Hugo, a dor, a tempestade: 
Que, embora contra um deus "Figaro" impiedade 
Vesgo olhinho a piscar diga tambour-major
Restruge alto acordando os cândidos espíritos 
Às glórias do oceano e percutindo os gritos 
Réus. Ao belo trovoar do magno Trovador 
Ouve-se afinação no mundo brasileiro,
Acorde tão formoso, hodierno, hospitaleiro,
Flamívomo social, encantador. Fulgura
Luz de dia primeiro, a nota formosura,
Que ao jeová-grande-abrir faz novo Éden luzir.

Sousândrade