terça-feira, 23 de outubro de 2012

O sexo é sagrado...


O sexo é sagrado, 
como salgadas são as gotas de suor 
que brotam dos meus poros 
e encharcam nossas peles. 
A noite é meu templo 
onde me torno uma deusa enlouquecida 
sentindo teus pelos sobre a minha pele
Neste instante já não sou nada, 
somente corpo, 
boca, 
pele, 
pêlos, 
línguas, 
bocas. 
E a vida brota da semente, 
dos poucos segundos de êxtase. 
Tuas mãos como um brinquedo 
passeiam pelo meu corpo. 
Não revelam segredos 
desvendam apenas o pudor do mundo, 
descobrem a febre dos animais. 
Então nos tornamos um 
ao mesmo tempo em que 
a escuridão explode em festa. 
A noite amanhece sem versos, 
com a música do seu hálito ofegante. 
O sol brota de dentro de mim. 
Breves segundos. 
Por alguns instantes dispo-me do sofrimento. 
Eu fui feliz.



Cláudia Marczak

segunda-feira, 1 de outubro de 2012


quinta-feira, 7 de junho de 2012


Anjos ou Deuses


Anjos ou deuses, sempre nós tivemos, A visão perturbada de que acima De nos e compelindo-nos Agem outras presenças. Como acima dos gados que há nos campos O nosso esforço, que eles não compreendem, Os coage e obriga E eles não nos percebem, Nossa vontade e o nosso pensamento São as mãos pelas quais outros nos guiam Para onde eles querem E nós não desejamos.

Ricardo Reis 

Elogio do Alexandrino



Asclepiádeo verso: à evolução do poema 

Das sestas, cadenciar d'altas antigüidades, 
já porque bipartido em fúlgidas metades 
Reata em conjunção opostos de um dilema, 
E já por ser de gala a forma do matiz 
Heleno na escultura e lácio na linguagem 
Reacesda, de Alexandre, em fogos de Paris: 
Paris o tom da moda, o bom gosto, a roupagem; 
Que desperta aos tocsins, galo às estrelas d'alva, 
Que faz revoluções de Filadélfia às salvas 
E o verso-luz, fardeur das formas, de grandeza, 
o verso-formosura, adornos, lauta mesa 
Ond' tokay, champanh', flor, copos cristal-diamantes
Sobrelevam roast-beef e os queijos e o pudding
Porém, mens divinior, poesia é o férreo guante: 
Ao das delícias tempo, o fácil verso ovante, 
o verso cor de rosa, o de oiro, o de carmim, 
Dos raios que o astro veste em dia azul-celeste; 
E para os que têm fome e sede de justiça, 
O verso condor, chama, alárum, de carniça, 
D'harpas d'Ésquilus, de Hugo, a dor, a tempestade: 
Que, embora contra um deus "Figaro" impiedade 
Vesgo olhinho a piscar diga tambour-major
Restruge alto acordando os cândidos espíritos 
Às glórias do oceano e percutindo os gritos 
Réus. Ao belo trovoar do magno Trovador 
Ouve-se afinação no mundo brasileiro,
Acorde tão formoso, hodierno, hospitaleiro,
Flamívomo social, encantador. Fulgura
Luz de dia primeiro, a nota formosura,
Que ao jeová-grande-abrir faz novo Éden luzir.

Sousândrade

domingo, 27 de maio de 2012

A Flor que És




A Flor que És

A flor que és, não a que dás, eu quero. Porque me negas o que te não peço. Tempo há para negares Depois de teres dado. Flor, sê-me flor! Se te colher avaro A mão da infausta esfinge, tu perere Sombra errarás absurda, Buscando o que não deste.

(Ricardo Reis)

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012