domingo, 6 de fevereiro de 2011

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Gary Snyder



DEPOIS DO TRABALHO



A cabana e algumas árvores

pairam na névoa que sopra



Eu tiro sua blusa

e aqueço minhas mãos frias

nos seus seios.

você ri e estremece

descascando alho junto ao

calor do fogão.

recolho o machado, o ancinho,

a lenha



nos encostaremos na parede

um contra o outro

um guisado cozinha devagar no fogo

enquanto anoitece

bebendo vinho





(Tradução: Luci Collin)

Hilda Hilst



Viviane Bordin


Prelúdios-intensos para os desmemoriados do amor


I

Toma-me. A tua boca de linho sobre a minha boca
Austera. Toma-me AGORA, ANTES
Antes que a carnadura se desfaça em sangue, antes
Da morte, amor, da minha morte, toma-me
Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute
Em cadência minha escura agonia.

Tempo do corpo este tempo, da fome
Do de dentro. Corpo se conhecendo, lento,
Um sol de diamante alimentando o ventre,
O leite da tua carne, a minha
Fugidia.
E sobre nós este tempo futuro urdindo
Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida
A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo.

Te descobres vivo sob um jogo novo.
Te ordenas. E eu deliquescida: amor, amor,
Antes do muro, antes da terra, devo
Devo gritar a minha palavra, uma encantada
Ilharga
Na cálida textura de um rochedo. Devo gritar
Digo para mim mesma. Mas ao teu lado me estendo
Imensa. De púrpura. De prata. De delicadeza.

II

Tateio. A fronte. O braço. O ombro.
O fundo sortilégio da omoplata.
Matéria-menina a tua fronte e eu
Madurez, ausência nos teus claros
Guardados.

Ai, ai de mim. Enquanto caminhas
Em lúcida altivez, eu já sou o passado.
Esta fronte que é minha, prodigiosa
De núpcias e caminho
É tão diversa da tua fronte descuidada.

Tateio. E a um só tempo vivo
E vou morrendo. Entre terra e água
Meu existir anfíbio. Passeia
Sobre mim, amor, e colhe o que me resta:
Noturno girassol. Rama secreta.
(...)

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011