sábado, 10 de dezembro de 2011

Marquês

Tinha os olhos que me vedes e que sempre foram considerados bonitos. Minha cintura estava ligeiramente cheia, embora grande, flexível e esguia. Quanto a meu traseiro, parte tão interessante para os libertinos de hoje, era, segundo todos diziam, superior a tudo o que se podia ver de mais sublime nesse gênero, e poucas mulheres em Paris o tinham tão deliciosamente torneado: era cheio, redondo, muito farto e rechonchudo, sem que estes volumes diminuíssem em nada a sua elegância; o mais leve movimento desvendava imediatamente esse botão de rosa que tanto amais, senhores, e que, concordo convosco, é o atrativo mais delicioso numa mulher. (Marquês de Sade) - 120 dias de Sodoma, p. 161

domingo, 13 de novembro de 2011


Minha primeira vez de verdade num swing foi com um cliente. Não me lembro da cara dele, mas me lembro do quanto ele era um "porre". É do tipo de cliente que as garotas de programa precisam contar os segundos ansiosamente para que o período acabe. (...) Infelizmente, há muitas mulheres que vão ao swing com a intenção de satisfazer sexualmente o marido, independentemente de se divertir ou não. (Bruna Surfistinha)

terça-feira, 1 de novembro de 2011

domingo, 24 de julho de 2011

O calor


Eis que surge todo o mal, fumega carne posta, aquelas ancas seriam o enluarado inferno. -Dai-me o crime, ó fruto de vossas entranhas, próxima é a morte de quem exala tua  loucura. Esconda tal fragilidade, cona insensata! Abandonai tuas psicoses em vestimentas do pecado, o justo lugar de minha honraria. O não estar convida o outro não ser que invalida os ecos da consciência em um crânio igualmente perverso. Não importava quão sujo fosse as ordens eram expressas, “primeiro a cama”. Outras residências mantinham aquele corpo gelado, já o meu... além de frequentado estava fervendo com aquele visgo peculiar. Quando as pernas distanciam-se involuntárias me arrepio toda, os dedos em toda a minha extremidade banindo-me da razão, é como um suicida sobre a mira de um revólver, esse seria o motivo com a qual o prazer concordara. Existia um pouco de certeza no que ela demonstrava, somente os pervertidos tinham aquele olhar, mas eram olhos quase que ferozes. - A calcinha de renda deveria fazer algo quanto a isso, não é mesmo? O infeliz mal de ser mulher é aguentar qualquer safadeza de um homem. As bebedeiras causavam-lhe tanta dor de cabeça que no dia seguinte não se lembrava do número de vezes que esguichava aquele porcaria amarela. Porém, voltemos a missão . A maneira como analisavam-me era um tanto pomposo, deixava-me eriçada como os pêlos de uma cachorrinha -“ Já que o bom nome não me comove, meu pedido é procurar outro." - Alíás, não o citei, mas sua carne é tão nobre que só os mais dignos se deliciam! Não entenderam, não é mesmo? Ah! Buceta, buceta, buceta, buceta, buceta, buceta... nehuma palavra, apenas atenção neste momento. Assim se lembram de mim! E a bunda? Um par de nádegas que preenchem assentos de conduções e memórias locais. Algumas pessoas se empolgam e o cheiro é tão asqueroso quanto o que dispersa no ar mas... de um só corpo, bunda ou buceta? Confuso demais não é, ninguém ia querer. Quem disse que deveriam escolher? Uma pessoa? Tentar entender até este momento, é o mesmo que perder a convicção, um local, uma mira... esse é o instante em que quando olham é para enfiar com toda a convicção em troca de um gemido, ensurdecer às maldades de um homem que emudeceu, aquele homem perdido, ainda assim não perco a voz nem as reclamações e nem mais... mais... as minhas crenças.

P. Viajei

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Algumas vezes

não nessa, não ainda

significado significa...

Parece escrita,

palavra perdida

nome de um desocupado

que não nasceu ainda.

Vilões do tempo

seres de outro mundo,

reféns da incógnita

definitiva

morra ou mergulhe

na insatisfação

na veleidade

no homem são

habitando vidas perfeitas.

P. Viajei

terça-feira, 19 de julho de 2011

Henry Miller


Lentamente, ele se curvou sobre ela, beijou sua boca úmida e cheirosa. A língua dela se introduziu entre seus dentes, e assim ficara, trêmulos e ofegantes. Ela o deixou acaricia-la, encorajava-o com surdos murmúrios, tomava-lhe a mão na sua e com esse toque ardente orienta-lhe a busca errática. E quando, depois, quedaram-se exauridos, ele a interrogou – sobre os outros com quem fora para cama; sobre o funcionamento de seu corpo de mulher; sobre os mais íntimos detalhes de sua vida emocional. Ela não fez qualquer tentativa de escamotear o que quer que fosse, nem procurou idealizar sentimentos. Nuas como sua carne eram as respostas que ela lhe deu. Nem ele lhe perguntou se havia amado um de cada vez. Pediu-lhe, em vez disso que descrevesse os seus próprios sentimentos, que lhe desse um quadro completo dos seus desejos, pensamentos, impulsos e reações.Quando, por sua vez, coube a ela interrogá-lo, ele teve dificuldade em responder. Enredou-lhe a tal ponto no que disse que ela se viu obrigada a não acreditar. Além disso, as sensações que ela tirava disso eram muito menos gratificantes do que havia imaginado. Era mais fácil para ela excitar-se com sua próprias sensações.

Crazy Cock – pág 112

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Frases: Marquês de Sade

...e que nada nem ninguém é mais importante do que nós próprios. E não devemos negar-nos nenhum prazer, nenhuma experiência, nenhuma satisfação, desculpando-nos com a moral, a religião ou os costumes.



http://pensador.uol.com.br/autor/marques_de_sade/

"CRÔNICA DE UM AMOR LOUCO" CENA FINAL(PRAIA)

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Dia do Rock

Viva o Rock n Roll!!!!!!!!!!!!

Hell Ride

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Vinícius de Morais

Soneto da Separação



De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

(Vinicius de Moraes)


segunda-feira, 4 de julho de 2011

120 dias de Sodoma - Marquês de Sade


'Onde diabo a senhora Duclos', começou dizendo, 'foi buscar uma safada feia como vós? Na lama, provavelmente!... Devíeis estar agarrando alguns soldados de guarda quando foram vos buscar.' Envergonhada, a jovem, que não fora avisada de nada, não sabia que atitude adotar. 'Vamos! despi-vos logo', continuou o cortesão... 'Como sois desajeitada!... Nunca vi puta mais feia nem mais estúpida em toda a minha vida... Pois bem! Vamos logo, será que ainda conseguireis acabar hoje?... Ah!, este é, portanto, o corpo que tanto me elogiaram? Que mamas... Parecem tetas de vaca velha!' E ele as manuseou brutalmente. 'E esse ventre! Como está rijo!... Será que tendes parido vinte crianças?' 'Nem uma única, senhor, garanto.' 'Ah!, sei, nem uma única: é o que todas dizem, aquelas safadas; se as escutarmos, são sempre donzelas... Vamos, virai-vos! Que bunda infame... Que nádegas flácidas e nojentas... É com muitos pontapés na bunda, sem dúvida, que vos deixaram o traseiro deste modo!.' Queiram notar, senhores, que era o mais belo traseiro que fosse possível ver. Entretanto, a moça começava a se perturbar; eu distinguia quase as palpitações de seu coraçãozinho e vi seus belos olhos se cobrirem de uma nuvem. Quanto mais ela parecia se perturbar, mais o gatuno a mortificava Ser-me-ia impossível dizer-vos todos os insultos com que a cobriu; não se ousaria dizer coisas tão picantes à mais vil e à mais infame das criaturas. Finalmente o coração disparou e as lágrimas desandaram: era para aquele instante que o libertino, que se poluía com todas suas forças, tinha reservado o remate das ladainhas. É impossível repetir-vos todos os horrores que ele lhe dirigiu sobre sua pele, sua cintura, seus traços, o cheiro infecto que pretendia emanar dela, sua vestimenta seu espírito: em suma, procurou tudo, inventou tudo para desesperar o seu orgulho, e esporrou nela, vomitando atrocidades que um grosseirão não ousaria pronunciar. p. 269-270 (120 dias de Sodoma)

sábado, 2 de abril de 2011

A história do olho


Suas meias de seda preeta subiam acima do joelho. Eu ainda não tinha conseguido vê-la até o cu (esse nome, que eu sempre empregava com Simone, era para mim o mais belo entre os nomes do sexo). Imaginava apenas que, levantando o avental, contemplaria a sua bunda pelada.

Havia no corredor um prato de leite para o gato.

- Os pratos foram feitos para a gente sentar - disse Simone. - disse Simone. - Quer apostar que eu me sento no prato?

- Duvido que você se atreva - respondi, ofegante. Fazia calor. Simone colocou o prato num banquinho, instalou-se à minha frente e, sem desviar dos meus olhos, sentou-se e mergulhou a bunda no leite. Por um momento fiquei imóvel, tremendo, o sangue subindo à cabeça, enquanto ela olhava o meu pau se erguer na calça. Deitei-me a seus pés. Ela não se mexia; pela primeira vez, vi sua "carne rosa e negra" banhada em leite branco. Permanecemos imóveis por muito tempo, ambos ruborizados. - Georges Bataille (A história do olho) pag. 23-24

Cântico dos Cânticos



Enquanto não respire o

dia,

E as sombras não desapareçam

Passear

vou eu ante a montanha

Das esmirnas e bem na

frente do monte

Do Líbano.


Inteira és bela, ó íntima de

mim,

E em ti nenhum defeito se

percebe.


Salomão: Cântico dos Cânticos pág. 65

Henri Miller




Há bocetas que riem e bocetas que falam; há bocetas malucas e histéricas com o formato de ocarinas e há bocetas abundantes e sismográficas que registram o subir e baixar da seiva; há bocetas canibalistas que se abrem como fauces de baleia e engolem vivo; há também bocetas masoquistas que se fecham como a ostra, têm conchas duras e talvez uma ou duas pérolas dentro; há bocetas ditirâmbicas que dançam à mera aproximação do pênis e ficam inteiramente úmidas com o êxtase; há as bocetas porco-espinho que abrem seus espinhos e sacodem bandeirinhas no Natal; há bocetas telegráficas que praticam o código Morse e deixam a mente cheia de pontos e traços; há as bocetas políticas que estão saturadas de ideologia e que negam até mesmo a menopausa; há bocetas vegetativas que não apresentam reação a menos que você as puxe pelas raízes; há bocetas religiosas que cheiram como Adventistas do Sétimo Dia e estão cheias de contas, minhocas, conchas, excrementos de carneiro e de vez em quando migalhas de pão seco; há as bocetas mamíferas que são forradas com pele de lontra e hibernam durante o longo inverno; há bocetas navegantes equipadas como iates, que são para solitários e epilépticos; há bocetas glaciais nas quais você pode deixar cair estrelas cadentes sem provocar uma faísca; há bocetas mistas que não se enquadram em categorias e descrições, com as quais você só encontra uma vez na vida e que o deixam queimado e marcado; há bocetas feitas de pura alegria que não têm nome nem antecedente e estas são as melhores de todas, mas para onde voaram elas? E depois há a boceta das bocetas, que é tudo e que chamaremos de superboceta, porque não é desta terra, mas daquele brilhante país para onde fomos há muito tempo convidados a voar.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Gary Snyder



DEPOIS DO TRABALHO



A cabana e algumas árvores

pairam na névoa que sopra



Eu tiro sua blusa

e aqueço minhas mãos frias

nos seus seios.

você ri e estremece

descascando alho junto ao

calor do fogão.

recolho o machado, o ancinho,

a lenha



nos encostaremos na parede

um contra o outro

um guisado cozinha devagar no fogo

enquanto anoitece

bebendo vinho





(Tradução: Luci Collin)

Hilda Hilst



Viviane Bordin


Prelúdios-intensos para os desmemoriados do amor


I

Toma-me. A tua boca de linho sobre a minha boca
Austera. Toma-me AGORA, ANTES
Antes que a carnadura se desfaça em sangue, antes
Da morte, amor, da minha morte, toma-me
Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute
Em cadência minha escura agonia.

Tempo do corpo este tempo, da fome
Do de dentro. Corpo se conhecendo, lento,
Um sol de diamante alimentando o ventre,
O leite da tua carne, a minha
Fugidia.
E sobre nós este tempo futuro urdindo
Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida
A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo.

Te descobres vivo sob um jogo novo.
Te ordenas. E eu deliquescida: amor, amor,
Antes do muro, antes da terra, devo
Devo gritar a minha palavra, uma encantada
Ilharga
Na cálida textura de um rochedo. Devo gritar
Digo para mim mesma. Mas ao teu lado me estendo
Imensa. De púrpura. De prata. De delicadeza.

II

Tateio. A fronte. O braço. O ombro.
O fundo sortilégio da omoplata.
Matéria-menina a tua fronte e eu
Madurez, ausência nos teus claros
Guardados.

Ai, ai de mim. Enquanto caminhas
Em lúcida altivez, eu já sou o passado.
Esta fronte que é minha, prodigiosa
De núpcias e caminho
É tão diversa da tua fronte descuidada.

Tateio. E a um só tempo vivo
E vou morrendo. Entre terra e água
Meu existir anfíbio. Passeia
Sobre mim, amor, e colhe o que me resta:
Noturno girassol. Rama secreta.
(...)

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

domingo, 30 de janeiro de 2011

Ilíada


"Ó filho de Peleu, coração-flâmeo! Devo-te
pôr a par de um lutuoso evento (antes
jamais tivesse acontecido!): Pátroclo está morto!
Em torno ao corpo nu, que Héctor, elmo faiscante,
espoliou lutam." Disse. E a dor nuvem-escura,
eclipsou o herói. De ambas as mãos toma esfúmeas
cinzas e as lança sobre a cabeça encardindo
o rosto belo; a túnica nectária, tinta
de fuligem, sujou-se; jaz no pó, estendido,
grande, grande e espaçoso, arrancando os cabelos.

ILÍADA, p. 231

Uma garota de lindas pernas


Uma garota de lindas pernas

Um Conto de Charles Bukowski Traduzido por: Mário Campos



A primeira vez que a vi foi num bar na rua Alvarado. Lisa era o nome. Na época eu tinha 24 anos e ela aparentava uns 35. Ela estava lá sentada no centro do bar e os dois bancos ao seu redor estavam vazios. Achei um tanto estranho não haver nenhum cara lhe penteando, tentando conseguir uma boa trepada.

Comparada com a maioria das mulheres que frequentavam aquele antro, ela realmente bonita. Seu rosto era meio arredondado e seu cabelo aparentemente nada tinha de excepcional, mas havia uma espécie de quietude e paz no modo como se sentava. Algo confortante que só as pessoas em paz conseguem passar. Sentia também um pouco de tristeza e timidez no seu jeito de olhar.

Levantei de meu banco para ir ao banheiro e tanto na ida como na volta passei ao seu lado; dei uma boa olhada nela. Era pequena, miúda, um pouco atarracada, mas com ancas perfeitas, bem formadas. No entanto a parte mais exuberante de seu corpo eram as pernas: tornozelos roliços, barrigas de pernas perfeitas, joelhos que imploravam para serem tocados, quase gritando, e coxas maravilhosamente torneadas.

Era como se aquela parte de seu corpo não tivesse sentido o peso do tempo, enquanto o resto dele se definhara.

Seu queixo era redondo como uma rosca e seu rosto bastante fofo. Parecia estar bêbada.
Ela usava sapatos de salto alto, pretos e brilhantes; em seu braço esquerdo havia três pulseiras de ouro falsificado e vagabundo e um pouco acima do pulso uma escura pele de toupeira, ou outra porra qualquer morta. Fumava um cigarro comprido e seu olhar estava fixo no copo de bebida. Parecia estar tomando whisly junto com uma garrafa de cerveja pra suavizar o baque.

Voltei par ao meu banco, acabei com meu whisly e pedi outro ao barman. Quando ele trouxe a bebida eu perguntei-lhe sobre as lindas pernas.

— Oh! — Exclamou ele — é a Lisa.
— Ela é bem bonita, — comentei — por que nenhum dos homens se senta ao seu lado?
— Isso é simples, — ele respondeu. — Ela é louca.

Depois disso retirou-se. Peguei o meu copo e fui até Lisa. Sentei-me no banco à sua esquerda, acendi um cigarro e tomei um gole da minha bebida. Eu já estava parcialmente bêbado. Peguei meu whisly e virei-o de uma só vez. Chamei o barman de novo:

— Repita a dose pra nós dois, e traga também duas cervejas.
Ao ouvir isso, Lisa acabou com sua bebida.
Quando as novas chegaram, cada um de nós tomou um gole d seu. Em seguida ficamos ambos olhando para o infinito.

Acho que alguns segundos se passaram até que ela disse:
— Não gosto das pessoas, e você?
— Também não.
Ela secou sua bebida e tomou um gole de cerveja. Fiz o mesmo.
— Sou louca — disse ela.
— Você é louco? Perguntou.
Sim.
Chamei o barman
— Eu pagarei a próxima — ela disse.

Encomendou as bebidas como se aquele ato fosse a coisa mais cotidiana em sua vida, como se fosse tudo que ela havia feito nos últimos dez anos ou quinze anos. Quando elas chegaram eu disse:
— Obrigado Lisa.
— É um prazer... Qual o seu nome?
— Hank.
— É um prazer, Hank.
— Tomou um gole e olhou pra mim de um jeito estranho.
— Você é louco o bastante pra quebrar o espelho de um bar?
— Acho que já fiz isso.
— Onde foi?
— O Orchoid room.
— O Orchoid room é um lugar estúpido e bobo.
— Não o freqüento mais.

Em seguida, Lisa, num só gole, bebeu quase toda a garrafa e suspirou.
— Cara, eu vou quebrar o espelho deste bar.
— Vá em frente — eu sugeri.

Acabou com a bebida levantou-se e pegou a garrafa de cerveja vazia. Levantou-se e colocou-a atrás da cabeça.
Num impulso repentino eu saltei tentando segurar seu braço, mas foi tarde demais.

A garrafa de cerveja, em trajetória de arco, voou até o espelho enquanto minha mente disse rapidamente:
— Não, não, merda!
Houve um aguçado estrondo de coisas se partindo, e estilhaços de vidros voaram como gigantes pingentes de gelo. Por alguma razão estranha as luzes se apagaram.

Foi assustador, mágico e lindo.
Acabei com meu whisky.

No escuro vi algo branco se aproximar. Era o barman que se reduzira a camisa e avental. Estava se mexendo rapidamente.
— Sua puta louca! — ele gritou.
— Vou te matar!

Posicionei Lisa atrás de mim. Tateei no escuro e achei a minha garrafa de cerveja. Quando o barman se aproximou dei sorte de acertá-lo na têmpora esquerda. No entanto, o desgraçado não caiu, ficou ali de pé no escuro com aquela roupa branca. Parecendo um desses porteiros de hotel chic esperando um táxi.

Passei a garrafa para minha mão esquerda e acho que pude sentir fraturar sua têmpora direita. Caiu em direção ao balcão, mas se segurou com ambas as mãos em um dos cantos.
Ficou assim por alguns instantes para em seguida tombar em direção À rua Alvarado.
Quando alcançou o chão as luzes se acenderam. Um sincronismo estranho, realmente.
Por um segundo parecia que todos no bar estavam congelados: os bebuns, eu, Lisa e o barman.

Em seguida eu berrei:
— “Vambora!”.
Agarrei Lisa pelo braço e a arrastei em direção à saída. No instante seguinte estávamos num beco. Eu a puxava.
— Venha, venha rápido!
— Não consigo correr com estes horríveis saltos.
— Então tira essa porra — eu disse.

Ela parou, arrancou-os dos pés, passou-me um, ficou com o outro, e corremos atravessando o beco. Quando chegamos ao outro lado, olhei para trás. Não estávamos sendo perseguidos.
— Tudo certo. Coloque os sapatos.
Assim fez. Enfiou o primeiro, apoiou-se no meu ombro e enfiou o segundo. Ficou em pé balançando aquele rabo divino.
— Pronto, vamos!
— Pra onde? Ela perguntou.
— Pra minha casa.
— Estávamos no final do beco, perto de uam esquina. Vi um ônibus, ergui meu braço e fiz sinal: puxei Lisa. O motorista já havia fechado a porta, mas parecia ser um cara legal, e a reabriu. Entrei empurrando Lisa e paguei as passagens. Tentei fazer com que se sentasse mas não consegui, ela ficou de pé segurando no encosto do banco.
Olhou-me bruscamente. Através de seus olhos verdes percebi uma enorme irritação. Ela disse:
— Merda! Quero um táxi. Sou uma dama. Não ando nesta bosta de transporte.
Lisa parecia uma linda gazela bêbada e sua maravilhosa bunda balançava com o sacolejar do ônibus.
— Eu quero um táxi. Sou uma senhora. Que fudição é essa?
— Bem, são só quatro quadras.
— Merda! — ela berrava — merda!

O próximo ponto era o nosso. Dei o sinal de parada. Na verdade apenas puxei aquela porra de fio. O ônibus parou. Peguei a mão de Lisa, passei meu braço pela sua cintura e ajudei-a a descer. Através da porta aidna abert ao motorista me olhou e disse:
— Boa sorte cara. Vai precisar dela.
— Vá se foder, você está com inveja! — respondi.

Ele riu, fechou a porta e sumiu com o ônibus na escuridão da noite. Eu gostei dele, parecia ser um cara comum, apenas estava dirigindo aquela merda de lata velha tentando mudar a sorte. Simplesmente não dava, e algum dia iria desistir de tudo, assim como eu também.
Lisa aparentava estar cada vez mais bêbada, e eu também não estava nada bem. Eu lhe ajudava a andar com um dos meus braços em volta de sua cintura, e o outro segurando seu braço direito ao redor de meu pescoço. Suas lindas pernas estavam desistindo e se entregando.
— Você não tem uma porra de carro?
— Não.
— Você é um cuzão.
— Sim.
Aos poucos chegávamos perto de meu apartamento.
— Tem alguma coisa para beber lá em cima? Se não tiver eu não vou entrar nesse lugar.
— Muitas garrafas de vinho... as melhores.
— Estou doente — disse ela, e se inclinou para a esquerda.

Eu estava tão bêbado que não consegui segurá-la. Caímos. A sorte foi que havia uma cerca do nosso lado, despencamos em cima dela. Caí na folhagem, rolei para trás e acabei deitado de costas na calçada. Levantei e olhei para baixo. Lá estava Lisa, deitada ao luar; metade de seu corpo na cerca e a outra metade na calçada. Sua saia estava levantada expondo as pernas mais lindas do planeta. As pernas brilhavam pra mim. Fiquei pasmo como que se não acreditando no que via. Quase gozei. No entanto, logo voltei À realidade.
— Lisa! — eu disse —Lisa, por favor levanta, acorda!
— Annh?
— A polícia vem vindo.

Consegui levantá-la e chegar à porta da frente do prédio. Fomos diretamente para o elevador já estava lá. Entramos. Enquanto a segurava, apertei o botão do meu andar. O troço fez um barulho e começou a subir.
— Sinto falta de meu filho. Quero meu bebê.
— É lógico que quer, — retruquei.

Tirei-a de lá e quando abri a porta do apartamento ambos caímos de novo.
Lisa se levantou, deu uma sacudida, arrumou sua saia, apanhou a bolsa e atravessou a sala para sentar numa cadeira.

Começou a fuçar ali dentro, digo, da bolsa, à procura de seus cigarros. De lá de fora, o neon mais vermelho de Los Angeles penetrava pela janela.
Abri uma garrafa de vinho para ela e a servi; ao som discreto e sedutor do esfregar de nylon, ela cruzou as pernas.

Na poltrona à sua frente, eu tinha outra garrafa. Já havia enchido meu copo. Esvaziei-o e tornei a enchê-lo.

Lisa olhou pra mim. Seus olhos foram ficando cada vez maiores. Parecia estar ficando doida, maluca. Então disse:
— Você pensa que é grande merda? Você pensa que é o Sr. Van Bilderass?
Eu já estava de roupa íntima, cueca manchada e rasgada como sempre. Levantei. Dei um pulo e bati nas minhas coxas.
— Ei, você pensa que tem boas pernas? Olhe para estas.
Voltei para a poltrona e bebi mais meio copo. Ela simplesmente continuou olhando para mim daquela maneira. Seus olhos iam ficando maiores e maiores. Imensos.
— Você pensa que é o Sr. Van Bilderass?
— Claro!
Ela se inclinou para pegar a garrafa de vinho, que já havia tampado e, enquanto me olhava com seus imensos olhos selvagens, elevou a garrafa até a cabeça. Aquela louca se preparava para atirar a porra da garrafa em mim. Berrei:
— Espere aí!
Ela ficou imóvel com o braço erguido. Tentei pensar rápido. Eu disse:
— Se você quiser atirar essa filha-da-puta, você pode, mas se você fizer isso é bom que me desmaie, caso contrário eu vou devolvê-la arrancando sua cabeça.
Colocou a garrafa no chão com aquele olhar louco. Suspirei aliviado. Fui até lá, destampei a garrafa, e enchi meu copo; depois fiz o mesmo com o seu. Voltei para a minha poltrona e me sentei. Sentia-me estranhamente bem.
— Agora quero que levante sua saia um pouco mais, sua puta.
Fiquei surpreso quando ela o fez. A saia estava agora duas polegadas acima de seu joelho.
— Agora me dá mais uma polegada. Nada mais do que isso.
Ela o fez.
Levantei-me e fiquei à sua frente. Cada curva e reentrância de seu corpo era estupendo. Eu morria de tesão. Seus sapatos reluziam.
— Torça seu tornozelo. Erga a perna um pouco, meu bem.
Lisa obedeceu.
— Agora pare aí! — ela parou.
— Agora quero mais uma polegada, vamos!
Lisa levantou a sai mais um pouco.
— AAH!, assim, assim está bem!
Virei um bicho sedento, ajoelhei-me e acariciei suas pernas, enfiei a mão por entre as coxas e desci até os joelho. Ela me olhou maliciosamente:
Você é um estúpido fudido. Um maluco.
Peguei seu pé e beijei seu sapato de salto alto. Em seguida fui subindo até o tornozelo.
— Você não é um assassino, é? — ela perguntou.
— Uma de minhas amigas foi amarrada por um cara aos pés de sua cama e o viado a esfaqueou. O cara ia retalhar ela todinha, mas ela gritou tão alto que os “ratos” ouviram e a salvaram. Você não é...
— Cala a boca!
Levantei e coloquei o pau para fora. Cuspi na palma da mão e comecei a massageá-lo.
— Você é uma puta fudida! —
Eu disse.
Continuei a me esfregar com naturalidade. Não tinha nada a perder.
— Outra polegada, mostre-me outra polegada!
Continuei esfregando.
— Mais, mostre-me mais, mais!
Era o segredo e o truque e a penetração. A amplitude dos sentidos.
— Ahhh, meu Deus, consegui!
A substância branca e pastosa jorrou; era o alívio de anos de frustração e solidão. À medida que eu expelia aquela gosma branca sobre suas pernas de nylon, parecia sentir em cada gota a angústia dos excluídos, dos esquecidos e do triste ser que eu era.
Ela berrou e deu um pulo.
— Seu porco! Seu porco fudido, idiota!
Lisa correu até o banheiro. Peguei a ponta de minha camisa e me limpei com ela. Voltei para a poltrona, enchi um copo e acendi um cigarro. As coisa pareciam ter algum sentido agora.

Lisa voltou do banheiro, sentou-se e se serviu de um copo. Acendeu um cigarro, e deu um trago profundo nele. Soltou a fumaça devagar. Sua voz sobressaiu-se por detrás da nuvem branca.
— Seu pobre miserável fudido!
— Eu te amo, sua puta! — Eu disse.
Ela virou o rosto para a parede.
Mal eu sabia que era o começo dos dois anos mais miseráveis e fortalecedores de minha vida.
— Esta é a única bebida que tem aí para oferecer? Este vinho fudido e barato?
— Não é tão ruim assim, Lisa. O que eu faço quando bebo é pensar em algo bem agradável como cachoeiras, ou uma conta bancária de quinhentos dólares. Ou as vezes eu imagino que estou num castelo com um fosso em volta. Ou ainda, finjo ser o dono de uma casa de bebidas finas.
— Você é louco, cara! — Ela disse.
E estava absolutamente certa.


BUKOWSKI

http://www.dopropriobolso.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=159:um-conto-de-bukowski-traduzido-por-mario-campos&catid=45:obras-literarias&Itemid=56

sábado, 22 de janeiro de 2011

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

domingo, 9 de janeiro de 2011