sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Rita ao meio dia


Surge um isqueiro e a vontade lhe ataca. Lá estava, portando um rouge vibrante pelas ruas de São Paulo. Trazia também um olhar distante e pensativo, parecido com o de quem procura algo, mas ali naquele mar de pernas e luzes, nada além de espera. Calculava ter nome de idoso já que se tratava de um bairro nobre. Joaquim, esse era o nome no celular, ao negociá-la balançava a cabeça afirmativamente propondo mais de uma. O cara sentia calafrios com mulheres, imagine só o que elas fariam. Rita e mais uma. Primeiro iriam mostrar o equipamento, fora os piercings e tatuagens, mas um corpinho adolescente na mais pura flor, nada que não fosse novidade. No lugar só davam as melhores, as mais belas e caras rameiras paulistas, algumas meio rock n’ roll com uns lances masoquistas. Agora ela... a lésbica, seria o grande trunfo, uma que posava de santa e até tinha a cara. Quem é que não sabe o que dizem dos tímidos? Sexo é o limite! Rita também tinha isso, só não passava a eternidade. Dormiriam? Talvez... só o bolso determinava. Elas sabem, inclusive, da importância de um bom sexo, que eram raros os orgasmos, mas... já não davam importância, logo saberiam elas que dividiriam olhares e um pouco de carícias. Vivem num bairro de belos saltos, saltos compridos e que fazem barulho, gostam disso, não havia como não olharem, ainda mais com aquela mini saia e o decote da amiga, somente a essência de primavera impregnando a beleza, são todas assim. Enquanto não chegava, Rita pensava no cliente, se velho demais, ou com um jeitão mais jovial do tipo, galã de cinema. Pensava também em empurrar a amiga caso não gostasse, esse era o combinado. Já a outra queria que fosse casado, tivesse uma senhora quarentona e moderninha, piercings nos mamilos, e aquela modinha dos anos 30, entretanto, não curtia esse lance de dividir a transa, achava meio bizarro e um tanto antiético, tirara isso do curso de direito. Apesar da aparência freqüentava algumas aulas, presente de um diretor. Outros retoques no final da escada, raramente tinham essa mania de perfeição, dependendo de quem fosse o cliente, seria até necessário uma depilação, esse pediu duas, uma já ajeitava o piercing do clitóris, era o mínimo a se fazer. Chegaram à porta. Olharam em volta das luminárias para ver se espiavam, viram que não, guardaram as maquiagens e ajeitaram os cabelos tendo e mente um último momento antes do serviço. Esperaram após a batida que presenciava alguns ruídos de dentro do apartamento. Sabiam de sua perversão, algumas das clientes eram suas amigas, tinham tudo para proporcionar uma noite infalível. Camisa aberta e barriga exagerada, totalmente desproporcional ao corpo, certamente bebia cerveja. A expressão pálida e mal humorada começara a mudar na presença dos lindos seios ali na porta, seriam claros feito a lua. Os de uma podiam ser rosados, já os da outra nem tanto, mas tinham talento. Até generosos se não me engano, mas aquelas bundas eram inconfundíveis, só podiam ser brasileiras. - Fenomenal! - Dizia o cliente. Viram o restante da sala enquanto o cliente exibia uma correntinha no pescoço, correntinha com um traço religioso, outros tinham lá suas preferências, mas a correntinha na cama era uma das coisas mais detestantes, ela batia na cara depois de um tempo. Pior seria um peito peludo e suado, no caso dele seriam pêlos brancos. Só prestaria para mostrar a idade. A tensão no lugar era evidente, onde estaria a empregada? Certamente teria empregada. Empregadas geralmente negam dar pro patrão, mas quando o cara é solitário também é cara de pau. Rita já foi, ou deveria ter sido empregadinha de alguém, homens são bem nojentos quando o assunto é doméstica, só ganhava aumento se desse pro patrão. Não sabia se a função estava mais pro quarto ou pro restante da casa. Felizmente isso favoreceu sua carreira, logo a patroa descobriu. Rita refletia quanto a isso. Solidão da companhia, solidão dos prazeres, não eram somente paredes claras ou uma espécie de carpete, mas um nojo de ganhar a vida. Naquilo ela estava certa. Sentia isso e outras coisas também. Pele úmida, não era visível, se bem que estimulante se tivesse a bebida, respondida ao também domínio do prazer. Estimava a companhia, estaria sobre elas naquela noite, sobre a saia vermelha e o decote mal intencionado, totalmente iluminadas pela beleza e pelos bares de Blues ali do lado, nem sequer uma lâmpada acesa. Sabia ela, Rita, que aquela não era de importância, fazia até com convidados se deixasse, procurava agradar a todos, só ela e seu pentelho, seja onde estivesse, ou com quem, assim nos motéis e ainda mais em banheiros públicos. Alguns se surpreendem, mas agora só o velho, na surpresa que o encara, ruídos de MPB. Se atreve deixando-as abertas, antecipava algumas tatuagens nas brancas pernas de toda São Paulo. Rita vê e lança um sorriso, prefere terminar o drink. Surpreende-se quando o velho cai de joelhos, tudo o que ela queria era bancar a sacana, - Não! Primeiro comece pelos pés – o coitado o fez. Tirou a meia negra e subiu por toda a extensão de seu corpo, o delírio foi maior com o amontoado negro, mais negro que as meias, topou com a língua, incrível era ela, toda escuridão. Qual vagina não se saciaria com tamanho desejo, somente uma dona insaciável. Não deixe seus lábios vermelhos no cigarro ainda aceso. – Dizia a canção. Numa voz suave e que só faziam gemidos, podia ser Rita, mas as pernas faziam um bom serviço, semi-abertas aos agrados, somente uma boca de querubim. Ao revelar da volúpia, Rita lança longos olhos de fúria, parecido com o hábito de sempre. Tornavam os lábios a se encostarem enquanto os seios eram consumidos por um arrepio curioso. Esperava os longos minutos de gemidos e palavrões, barulhos de móveis e exageros de lésbica. Solitária e também insana, tinha apenas a garrafa de uísque enquanto eles, as mais loucas orgias. Se manifestou. Não deixou que acabassem. Enquanto uma preparava-se para nova posição, a outra exasperou-se parecendo um animal no cil, não pensou, postou-se na a mesa como uma refeição, totalmente de quatro e com o ânus a mostra. – Vem! É isso que você quer porra! Larga essa magrela. - A do sofá até se impressionou e com raiva sacudiu seu cabelinho preto, fazer melhor, eu? Pensou. Não havia nada melhor que as loucuras de Rita, nada mais impressionante que aquela posição. Logo os dois enlouqueceram, sentiram-se no paraíso. Rita com uma língua na sua imensidão anal, e o outro saboreando a mais exótica brasilidade. Tamanha foi a vontade que... não demorou muito para todos se juntarem. Estava perfeito, as roupas arremessadas e os olhos adormecidos em um... em um...

terça-feira, 17 de agosto de 2010

uivo - Allen Ginsberg



Uivo
para Carl Solomon



Eu vi os expoentes de minha geração destruídos pela loucura,

morrendo de fome, histéricos, nus,

arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca

de uma dose violenta de qualquer coisa,

"hipsters" com cabeça de anjo ansiando pelo antigo contato

celestial com o dínamo estrelado da maquinaria da noite,

que pobres, esfarrapados e olheiras fundas, viajaram fumando

sentados na sobrenatural escuridão dos miseráveis aparta-
mentos sem água quente, flutuando sobre os tetos das
cidades contemplando jazz,

que desnudaram seus cérebros ao céu sob o Elevado e viram

anjos maometanos cambaleando iluminados nos telhados
das casas de cômodos,

que passaram por universidades com os olhos frios e radiantes

alucinando Arkansas e tragédias à luz de William Blake
entre os estudiosos da guerra,

que foram expulsos das universidades por serem loucos e publi-

carem odes obscenas nas janelas do crânio,

que se refugiaram em quartos de paredes de pintura descasca-

da em roupa de baixo queimando seu dinheiro em cestas
de papel, escutando o Terror através da parede,

que foram detidos em suas barbas públicas voltando por Laredo

com um cinturão de marijuana para Nova York,

que comeram fogo em hotéis mal-pintados ou beberam tereben-

tina em Paradise Alley, morreram ou flagelaram seus tor-
sos noite após noite

com sonhos, com drogas, com pesadelos na vigília, álcool e cara-

lhos e intermináveis orgias,

incomparáveis ruas cegas sem saída de nuvem trêmula e clarão

na mente pulando nos postes dos pólos de Canadá & Pa-
terson, iluminando completamente o mundo imóvel do
Tempo intermediário,

solidez de Peiote dos corredores, aurora de fundo de quintal
com verdes árvores de cemitério, porre de vinho nos te-
lhados, fachadas de lojas de subúrbio na luz cintilante de
neon do tráfego na corrida de cabeça feita do prazer, vi-
brações de sol e lua e árvore no ronco de crepúsculo de
inverno de Brooklin, declamações entre latas de lixo e a
suave soberana luz da mente,
que se acorrentaram aos vagões do metrô para o infindável

percurso do Battery ao sagrado Bronx de benzedrina até
que o barulho das rodas e crianças os trouxesse de volta,
trêmulos, a boca arrebentada e o despovoado deserto do
cérebro esvaziado de qualquer brilho na lúgubre luz do Zôo-
lógico,

que afundaram a noite toda na luz submarina de Bickford's,

voltaram à tona e passaram a tarde de cerveja choca no
desolado Fugazzi's escutando o matraquear da catástrofe
na vitrola automática de hidrogênio,

que falaram setenta e duas horas sem parar do parque ao apê ao

bar ao hospital Bellevue ao Museu à Ponte de Brooklin,

batalhão perdido de debatedores platônicos saltando dos gra-

dis das escadas de emergência dos parapeitos das janelas
do Empire State da lua,

tagarelando, berrando, vomitando, sussurando fatos e lembran-

ças e anedotas e viagens visuais e choques nos hospitais e prisões e guerras,

intelectos inteiros regurgitados em recordação total com os

olhos brilhando por sete dias e noites, carne para a sinago-
ga jogada na rua,

que desapareceram no Zen de Nova Jersey de lugar algum dei-

xando um rastro de cartões postais ambíguos do Centro
Cívico de Atlantic City,

sofrendo amores orientais , pulverizações tangerianas nos ossos

enxaquecas da China por causa da falta da droga no
quarto pobremente mobiliado de Newark,

que deram voltas e voltas à meia-noite no pátio da estação fér-

roviária perguntando-se onde ir e foram, sem deixar cora-
ções partidos,

que acenderam cigarros em vagões de carga, vagões de carga,

vagões de carga que rumavam ruidosamente pela neve
até solitárias fazendas dentro da noite do avô,

que estudaram Plotino, Poe, São João da Cruz, telepatia e

bop-cabala pois o Cosmos instintivamente vibrava a seus
pés em Kansas,

que passaram solitários paelas ruas de Idaho procurando anjos

índios e visionários,

que só acharam que estavam loucos quando Baltimore apareceu

em êxtase sobrenatural,

que pularam em limusines com o chinês de Oklahoma no impul-

so da chuva de inverno na luz da rua da cidade pequena
à meia-noite,

que vaguearam famintos e sós por Houston procurando jazz

ou sexo ou rango e seguiram o espanhol brilhante para
conversar sobre América e Eternidade, inútil tarefa, e
assim embarcaram num navio para a África,

que desapareceram nos vulcões do México nada deixando

além da sombra das suas calças rancheiras e a lava e a
cinza da poesia espalhadas na lareira de chicago,

que reapareceram na Costa Oeste investigando o FBI de barba e

bermudas com grandes olhos pacifistas e sensuais nas suas
peles morenas, distribuindo folhetos ininteligíveis,

que apagaram cigarros acesos nos seus braços protestando contra

o nevoeiro narcótico de tabaco do capitalismo,

que distribuíram panfletos supercomunistas em Union Suare,

chorando e despindo-se enquanto as sirenes de Los Alamos
os afugentavam gemendo mais alto que eles e gemiam
pela Wall Street e também gemia a balsa da Staten Is-
land,

que caíram em prantos em brancos ginásios desportivos, nus e

trêmulos diante da maquinaria de outros esqueletos,

que morderam policiais no pescoço e berraram de prazer nos

carros de presos por não terem cometido outro crime a não
ser sua transação pederástica e tóxica,

que uivaram de joelhos no Metrô e foram arrancados do telha-

do sacudindo genitais e manuscritos,

que se deixaram foder no rabo por motociclistas santificados e

urraram de prazer,

que enrabaram e foram enrabados por estes serafins humanos, os

marinheiros, carícias de amor atlântico e caribeano,

que transaram pela manhã e ao cair da tarde em roseirais, na

grama de jardins públicos e cemitérios, espalhando livre-
mente seu sêmem para quem quisesse vir,

que soluçaram interminavelmente tentando gargalhar mas acaba-

ram choramingando atrás de um tabique de banho turco
onde o anjo loiro e nu veio atravessá-los com sua espada,

que perderam seus garotos amados para as tres megeras do destino,

a megera caolha do dólar heterossexual, a megera caolha que pisca de dentro do ventre e a megera caolha que só sabe ficar plantada sobre sua bunda retalhando os dourados fios do tear do artesão,

que copularam em êxtase insaciável com uma garrafa de cerveja,

uma namorada, um maço de cigarros, uma vela, e caíram da cama e continuaram pelo assoalho e pelo corredor e terminaram desmaiando contra a paerede com uma visão da buceta final e acabaram sufocando um derradeiro lampejo de consciência,

que adoçaram trepadas de um milhão de garotas trêmulas

ao anoitecer, acordaram de olhos vermelhos no dia seguin-
te mesmo assim prontos para adoçar trepadas na aurora, bundas luminosas nos celeiros e nus no lago,

que foram transar em Colorado numa miríade de carros roubados

à noite, N.C. herói secreto destes poemas , garanhão
e Adonis de Denver - prazer ao lembrar de suas incontáveis
trepadas com garotas em terrenos baldios e pátios dos
fundos de restaurantes de beira de estrada, raquíticas filei-
ras de poltronas de cinema, picos de montanha, cavernas
ou com esquálidas garçonetes no familiar levantar de saias
solitário á beira da estrada & especialmente secretos solip-
sismos de mictórios de postos de gasolina & becos da cidade
natal também,

que se apagaram em longos filmes sórdidos, foram transportados

em sonho, acordaram num Manhattan súbito e consegui-
ram voltar com uma impiedosa ressaca de adegas de
Tokay e o horror dos sonhos de ferro da Terceira Aveni-
da & cambalearam até as agências de emprego,

que caminharam a noite toda com os sapatos cheios de sangue

pelo cais coberto por montões de neve, esperando que
se abrisse uma porta no East River dando num quarto
cheio de vapor e ópio,

que criaram grandes dramas suicidas nos penhascos de aparta-

mentos de Hudson à luz de holofote anti-aéreo da lua &
suas cabeças receberão coroa de louro no esquecimento,(...)


Allen Ginsberg



sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Gregory Corso

CASA NATAL REVISITADA





Fico na luz escura da rua escura

e olhos para cima para a minha janela, nasci ali.

As luzes estão acesas; outra gente anda por lá.

Estou de gabardina; cigarro na boca,

cabelo para os olhos, mão na garganta.

Atravesso a rua e entro no prédio.

Os caixotes do lixo continuam a cheirar mal.

Subo ao primeiro andar; Orelhas Sujas

aponta-me uma faca...

eu tactei-o cheio de relógios perdidos









Minha decência


Minha decência

Minha decência não é inocência
inconfidência mamadeira
traz rapadura pras cachorras
caiu com o bicho de pé da sola
Tio Barnabé bebeu café branco
usou tamanco branco no ano branco
Nega Jurema meteu a mão boba
no bolso caído às velhotas.

P.Viajei


terça-feira, 10 de agosto de 2010