sábado, 10 de abril de 2010

Walt Whitman






Uma canção da Califórnia,
Uma profecia e dissimulação, um pensamento tão impalpável para respirar quanto o ar,
Um coro de dríades, desfalecendo, partindo, ou hamadríades partindo,
Uma voz murmurante, decisiva, gigante, desde a terra e céu,
Voz de uma poderosa árvore moribunda na densa floresta de sequóia.
Adeus meus irmãos,
Adeus Oh terra e céu, adeus a vós águas vizinhas,
Meu tempo findou, meu prazo chegou,
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Pelo litoral norte,
Um pouco afastado da praia rodeada de rochas e cavernas,
No ar salino do mar no condado de Mendocino,
Com as vagas como base e acompanhamento baixo e rouco,
Com crepitantes golpes de machados soando musicalmente acionados por braços fortes,
Fendida fundo pelas línguas afiadas dos machados, lá na floresta densa de sequóia,
Ouvi a poderosa árvore cantando seu canto de morte.
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Os cortadores não ouviram, as choças e cantigas do acampamento não ecoaram,
Os carreteiros de ouvido apurado e os carregadores de corrente e macaco de rosca não ouviram,
Quando os espíritos da floresta vieram de seus refúgios de mil anos para unir-se ao refrão,
Mas em minha alma eu ouvi claramente.
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Murmurando desde sua miríade de folhas,
Do seu altivo topo se erguendo a duzentos pés de altura,
De seu tronco robusto e membros, de sua casca espessa,
Aquele canto das estações e tempo, canto não só do passado mas do futuro.
Tu minha vida inarrada,
E todos vós veneráveis e inocentes júbilos,
Minha vida resistente e perene com júbilos em meio à chuva e muitos sóis de verão,
E as brancas neves e noite e os ventos bravios;
Ah os grandes júbilos ásperos pacientes, os fortes júbilos de minha alma impensados pelo homem,
(Pois saibas que carrego a alma adequada a mim, também tenho consciência, identidade,
E todas as pedras e montanhas têm, e toda a terra,)
Júbilos da vida adequados a mim e meus irmãos,
Nosso tempo, nosso prazo chegou.
Nem nos rendemos tristemente majestosos irmãos,
Nós que preenchemos grandiosamente nosso tempo;
Com o calmo contentamento da Natureza, com enorme deleite tácito,
Nós acolhemos o que forjamos no passado,
E deixamos o campo para eles.
Para eles previstos há tempos,
Para uma raça mais soberba, para eles também grandiosamente preencher seu tempo,
Por eles abdicamos, neles nós mesmos vós reis da floresta!
Neles estes céus e ares, estes picos de montanhas, Shasta, Nevadas,
Estes enormes penhascos escarpados, esta amplidão, estes vales, Yosemite distante,
Para neles ser absorvidos, assimilados.
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Então a uma tensão mais elevada,
Ainda mais orgulhoso, mais extático se ergueu o canto,
Como se os herdeiros, as deidades do Oeste,
Acompanhando com língua magistral tomassem parte.
Nem pálidas dos fetiches da Ásia,
Nem vermelhas do antigo matadouro dinástico da Europa,
(Área de tramas assassinas de tronos, ainda com sobra do cheiro de guerras e patíbulos em todos os lugares,)
Mas vindas dos longos e inofensivos estertores da Natureza, construídas pacificamente daí,
Estas terras virgens, terras da costa Ocidental,
Para o novo homem culminante, pra ti, o império novo,
Tu há tempos prometido, empenhamos, dedicamos.
Vós profundas volições ocultas,
Tu masculinidade espiritual média, propósito de tudo, pairando em ti mesma, concedendo não tomando lei,
Tu divina feminidade, senhora e fonte de tudo, origem de vida e amor e o que vem de vida e amor,
Tu essência moral invisível de todos os vastos materiais da América,
(era após era trabalhando na morte como na vida,)
Tu que, às vezes conhecido, com mais freqüência desconhecido, realmente forma e modela o Novo Mundo, ajustando-o ao Tempo e Espaço,
Tu vontade nacional escondida estendida em teus abismos, oculta mas sempre alerta,
Vós propósitos passados e presentes tenazmente perseguidos, talvez inconscientes de vós mesmos,
Inabalados por todos os erros fugazes, perturbações da superfície;
Vós germes vitais, universais, imortais, sob todos os credos, artes, estatutos, literaturas,
Aqui construís vossos lares para sempre, estabeleçam-se aqui, estas áreas inteiras, terras da costa Ocidental,
Nos empenhamos, dedicamos a vós.
Pois vosso homem, vossa raça característica,
Aqui pode ele crescer árduo, doce, gigantesco, aqui se elevar proporcional à Natureza,
Aqui galgar os puros espaços vastos inconfinados, irreprimidos por parede ou telhado,
Aqui rir com procela ou sol, aqui júbilo, aqui pacientemente se habituar,
Aqui ouvir-se, desdobrar-se, (não ouvir fórmulas de outros,) aqui preencher seu tempo,
Propriamente cair, auxiliar, impensado por fim,
Desaparecer, servir.
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Assim no litoral norte,
No eco dos chamados de carreteiros e das correntes tilintantes, e a música dos machados de cortadores,
O tronco e os ramos cadentes, o estrondo, o guincho abafado, o gemido,
Tais palavras combinadas da sequóia, como de vozes extáticas, antigas e bulhentas,
As dríades seculares, invisíveis, cantando, recuando,
Deixando todos seus recessos de florestas e montanhas,
Da cordilheira de Cascade até a de Wahsatch, ou Idaho distante, ou Utah,
Às deidades do moderno doravante se rendendo,
O coro e as indicações, as perpesctivas da humanidade vindoura, as colônias, todos aspectos,
No bosque de Mendocino peguei.
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O flamejante cortejo dourado da Califórnia,
O drama súbito e suntuoso, as terras ensolaradas e amplas,
O trecho longo e variado do estreito de Puget até o Colorado meridional,
Terras banhadas em ar mais doce, mais raro, mais saudável, vales e penhascos montanhosos,
Os campos da Natureza há muito preparados e incultos, a química cíclica, silenciosa,
As eras lentas e regulares mourejando, a superfície desocupada maturando, os ricos minérios se formando abaixo;
Por fim o Novo chegando, assumindo, tomando posse,
Uma raça pululante e atarefada colonizando e se organizando em todos os lugares,
Navios vindo de todo este redondo mundo, e saindo para o mundo inteiro,
Para a Índia e China e Austrália e as mil ilhas paradisíacas do Pacífico,
Cidades populosas, as últimas invenções, os vapores nos rios, as ferrovias, com muita fazenda florescente, com maquinaria,
E lã e trigo e a uva, e escavações de ouro amarelo.
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Mas mais em ti que estas, terras da costa Ocidental,
(Estas só os meios, os implementos, o terreno fixo,)
Vejo em ti, certo por vir, a promessa de milhares de anos, até agora adiada,
Prometida para ser cumprida, nossa espécie comum, a raça.
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A nova sociedade por fim, proporcional à Natureza,
Em teus homens, mais que em teus picos de montanha ou árvores robustas imperiais,
Na mulher mais, muito mais, que todo teu ouro ou videiras, ou mesmo o ar vital.
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Recém vindo, a um novo mundo de fato, porém há muito preparado,
Vejo o gênio do moderno, filho do real e ideal,
Desbravando o território para a ampla humanidade, a verdadeira América, herdeira de tão grandioso passado,
Para construir um futuro mais grandioso.

Walt Whitman

Uma Canção de Júbilos
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Oh criar a canção mais jubilosa!
Cheia de música—cheia de masculinidade, feminidade, infância!
Cheia de ocupações comuns—cheia de cereais e árvores.
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Oh pelas vozes de animais—Oh pela presteza e proporção dos peixes!
Oh pelo verter de gotas de chuva em uma canção!
Oh pela luz do sol e impulso de ondas em uma canção!
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Oh o júbilo de meu espírito—ele está desenjaulado – ele dispara feito raio!
Não é o bastante ter este globo ou um certo tempo,
Terei milhares de globos e todo tempo.
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Oh os júbilos do engenheiro! andar numa locomotiva!
Ouvir o silvo do vapor, o guincho alegre, o apito a vapor, a hílare locomotiva!
Impulsionar sem resistência e acelerar na distância.
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Oh o alegre passeio nos campos e encostas!
As folhas e flores das ervas daninhas mais comuns, a quietude fresca úmida dos bosques,
O agudo aroma da terra na aurora, e por toda a manhã.
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Oh o júbilo do cavaleiro e amazona!
A sela, o galope, a pressão no assento, o fresco jorrar nas orelhas e cabelos.
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Oh o júbilo do bombeiro!
Ouço o alarme no meio da madrugada,
Ouço sinos, gritos! Passo a multidão, corro!
A visão das chamas me enlouquece de prazer.
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Oh o júbilo do vigoroso lutador, altaneiro na arena em condição perfeita, consciente do poder, sedento por conhecer seu oponente.
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Oh o júbilo dessa vasta solidariedade essencial que só a alma humana é capaz de gerar e emitir em fluxos estáveis e ilimitados.
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Oh o júbilo da mãe!
A vigilância, a resistência, o amor precioso, a angústia, a vida pacientemente concedida.
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Oh o júbilo do aumento, crescimento, recuperação,
O júbilo de acalmar e pacificar, o júbilo de concórdia e harmonia.
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Oh voltar ao lugar onde nasci,
Ouvir os pássaros cantar uma vez mais,
Vaguear pela casa e galpão e pelos campos uma vez mais,
E no pomar e pelas velhas veredas uma vez mais.
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Oh ter sido criado em baías, lagunas, riachos, ou no litoral,
Continuar e ser empregado lá toda a minha vida,
O cheiro salobro e úmido, a praia, as algas salgadas expostas na maré baixa,
O trabalho de pescadores, o trabalho do pescador de enguia e do marisqueiro;
Venho com meu ancinho e pá, venho com meu arpão,
A maré está baixa? Eu me junto ao grupo de catadores de marisco nos baixios,
Rio e trabalho com eles, gracejo no meu trabalho como um jovem brioso;
No inverno pego minha cesta e arpão de enguia e viajo a pé no gelo—tenho um machadinho para fazer buracos no gelo,
Vede me bem-trajado indo jovialmente ou retornando à tarde, meu bando de rudes rapazes me acompanhando,
Meu bando de rapazes meio-maduros e maduros, que não adora estar com ninguém mais tão bem quanto adora estar comigo,
De dia trabalhar comigo, e de noite dormir comigo.
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Uma outra vez em tempo quente num barco, erguer os cestos de lagosta onde estão afundados com pedras pesadas, (conheço as bóias,)
Oh a doçura da manhã do Quinto mês sobre a água quando remo logo antes da aurora para as bóias,
Puxo os cestos de vime para cima obliquamente, as lagostas verde-escuras estão desesperadas com suas garras quando as tiro, insiro cavilhas de madeira nas juntas de suas quelas,
Vou a todos os lugares um após o outro, e aí remo de volta à praia,
Lá num enorme caldeirão de água fervente as lagostas serão fervidas até sua cor se tornar escarlate.
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Uma outra vez pegando cavalinha,
Vorazes, loucas pelo anzol, perto da superfície, parecem preencher a água por milhas;
Uma outra vez pescando serranídeos na baía de Chesapeake, eu parte da tripulação bronze-faceada;
Uma outra vez rastreando enchova em Paumanok, me posto com o corpo preparado,
Meu pé esquerdo está na amurada, meu braço direito lança ao longe os rolos de corda leve,
À vista a meu redor as rápidas guinadas e arranques de cinqüenta esquifes, meus companheiros.
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Oh navegando nos rios,
A viagem descendo o São Lourenço, a paisagem soberba, os vapores,
Os navios navegando, as Mil Ilhas, a jangada de madeira ocasional e os jangadeiros com longos remos,
As pequenas cabanas nas jangadas, e a névoa de fumaça quando preparam ceia à noite.
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(Oh algo pernicioso e terrível!
Algo distante de uma vida débil e devota!
Algo não provado! algo num transe!
Algo escapado da ancoragem e seguindo livre.)
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Oh trabalhar em minas, ou forjando ferro,
Fundição fundindo, a própria fundição, o telhado alto e rude, o espaço amplo e sombreado,
A fornalha, o líquido quente despejado e escorrendo.
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Oh retomar o júbilo do soldado!
Sentir a presença de um valente oficial comandante—sentir sua solidariedade!
Ver sua calma—ser aquecido nos raios de seu sorriso!
Ir pra batalha—ouvir as cornetas tocar e os tambores rufar!
Ouvir o estrondo da artilharia—ver o brilho das baionetas e os canos dos mosquetes ao sol!
Ver homens tombar e morrer e não reclamar!
Provar o gosto selvagem de sangue—ser tão satânico!
Se regozijar sobre as feridas e mortes do inimigo.
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Oh o júbilo do baleeiro! Oh navego minha velha viagem de novo!
Sinto o movimento do navio sob mim, sinto as brisas Atlânticas me bafejando,
Ouço de novo o grito vindo do topo do mastro, Lá—ela sopra!
De novo pulo o cordame para olhar com os demais—descemos, ansiosos com a agitação,
Salto no barco baixado, remamos rumo à nossa presa aonde ele jaz,
Nos aproximamos furtivos e silenciosos, vejo a massa montanhosa, letárgica, exposta ao sol,
Vejo o arpoador se erguendo, vejo a arma partir de seu braço vigoroso;
Oh veloz de novo distante no oceano a baleia ferida, serenando, correndo a barlavento, me reboca,
De novo o vejo subir pra respirar, remamos perto de novo,
Vejo uma lança enfiada em seu flanco, pressionada fundo, girada na ferida,
De novo nos retiramos, o vejo serenar de novo, a vida o está deixando rápido,
Quando sobe ele esguicha sangue, o vejo nadar em círculos cada vez mais estreitos, cortando a água veloz—o vejo morrer,
Ele dá um salto convulsivo no centro do círculo, e então fica prostrado e imóvel na espuma sangrenta.[1]
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Oh minha velha virilidade, meu mais nobre júbilo!
Meus filhos e netos, meu cabelo branco e barba,
Minha grandeza, calma, majestade, na longa extensão de minha vida.
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Oh júbilo maduro da feminidade! Oh felicidade afinal!
Tenho mais de oitenta anos de idade, sou a mais venerável mãe,
Como é clara minha mente—como todas as pessoas se achegam a mim!
Que atrações são estas além das anteriores? o que floresce mais que a flor da juventude?
Que beleza é esta que desce sobre mim e se eleva de mim?
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Oh o júbilo do orador!
Inflar o tórax, rolar o trovão da voz das costelas e garganta,
Fazer o povo se enfurecer, lamentar, odiar, desejar, contigo,
Conduzir a América—dominar a América com uma grande língua.
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Ah o júbilo de minha alma pairada sobre si mesma, recebendo identidade através de materiais e os amando, observando caracteres e os absorvendo,
Minha alma vibrou de volta a mim deles, da visão, audição, tato, razão, articulação, comparação, memória, e assim por diante,
A vida real de meus sentidos e corpo transcendendo meus sentidos e corpo,
Meu corpo cansado dos materiais, minha visão cansada dos meus olhos físicos,
Provado a mim hoje além de sofismas que não são meus olhos físicos que finalmente vêem,
Nem meu corpo físico que finalmente ama, anda, ri, grita, abraça, procria.
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Ah o júbilo do fazendeiro!
O júbilo do Ohioano, Illinoisiano, Wisconsinês, Kanadiano, Iowano, Kansiano, Missouriano, Oregonês!
Se levantar ao raiar do dia e agilmente ir trabalhar,
Arar terra no outono para culturas semeadas no inverno,
Arar terra na primavera para o milho,
Arrumar pomares, enxertar as árvores, colher maçãs no outono.
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Ah banhar-se na piscina, ou num bom lugar na praia,
Aspergir água! caminhar com água pelos tornozelos, ou correr nu pela praia.
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Ah perceber o espaço!
Ah a plenitude de tudo, que não há limites,
Emergir e ser do céu, do sol e lua e nuvens voadoras, ser um com eles.
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Ah o júbilo de um si mesmo viril!
Ser servil a ninguém, submeter-se a ninguém, a nenhum tirano conhecido ou desconhecido,
Caminhar com postura ereta, um passo flexível e elástico,
Olhar com mirada calma ou com olho cintilante,
Falar com uma voz plena e sonora saindo de um amplo tórax,
Confrontar com tua personalidade todas as outras personalidades da terra.
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Conhece tu o júbilo excelente da juventude?
Júbilo dos queridos companheiros e da palavra feliz e rosto risonho?
Júbilo do dia festivo radiante, júbilo dos jogos de grande fôlego?
Júbilo de doce música, júbilo do salão iluminado e dos dançarinos?
Júbilo da refeição completa, da boa farra e bebida?
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Porém Ah minha alma suprema!
Conhece tu o júbilo do pensamento contemplativo?
Júbilo do coração livre e isolado, do coração terno e sombrio?
Júbilo da caminhada solitária, do espírito reverente mas orgulhoso, do sofrimento e da porfia?
As dores agonísticas, os êxtases, júbilo das solenes reflexões dia ou noite?
Júbilo do pensamento da Morte, as grandes esferas Tempo e Espaço?
Júbilo profético dos melhores e mais elevados ideais de amor, da divina esposa, do doce, eterno, perfeito camarada?
Júbilo todo teu imortal, júbilo digno de ti Oh alma.
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Ah enquanto vivo pra ser o regente da vida, não um escravo,
Encontrar a vida como um conquistador poderoso,
Nem fumos, nem enfado, nem mais queixas ou críticas desdenhosas,
A estas leis orgulhosas do ar, da água e do chão, revelando minha alma interior inexpugnável,
E nada exterior jamais me comandará.
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Pois não só o júbilo da vida canto, repetindo—o júbilo da morte!
Ah o belo toque da Morte, acalmando e entorpecendo alguns momentos, por razões,
Eu mesmo liberando meu corpo excrementoso para ser queimado, ou cedido ao pó, ou enterrado,
Meu corpo real deixado sem dúvida a mim para outras esferas,
Meu corpo vazio nada mais para mim, voltando às purificações, futuros ofícios, usos eternos da terra.
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Ah atrair por mais do que atração!
Como é não sei—porém vê! o algo que não obedece nada mais,
É ofensivo, nunca defensivo—porém como puxa magnético.
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Ah enfrentar grandes desavenças, encontrar inimigos indômitos!
Estar inteiramente sozinho com eles, descobrir o quanto podemos suportar!
Olhar contenda, tortura, prisão, opróbrio popular, cara a cara!
Escalar o cadafalso, avançar para os canos das armas com perfeito desinteresse!
Ser de fato um Deus!
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Ah navegar para o mar em um navio!
Deixar esta intolerável terra estável,
Deixar a mesmice cansativa das ruas, das calçadas e das casas,
Deixar-te Oh terra sólida imóvel, e entrar num navio,
Para navegar e navegar e navegar!
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Ah ter a vida doravante um poema de novo júbilo!
Dançar, bater palmas, exultar, gritar, saltar, pular, rolar, flutuar!
Ser um marinheiro do mundo rumo a todos os portos,
Um navio em si, (vede de fato estas velas que iço ao sol e ar,)
Um veloz e volumoso navio cheio de palavras ricas, cheio de júbilo.

T.S. Eliot












OS HOMENS OCOS



Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada

Fôrma sem forma, sombra sem cor
Força paralisada, gesto sem vigor;

Aqueles que atravessaram
De olhos retos, para o outro reino da morte
Nos recordam - se o fazem - não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.
T.S. Eliot










Florbela Espanca










Amiga






Deixa-me ser a tua amiga, Amor,



A tua amiga só, já que não queres



Que pelo teu amor seja a melhor



A mais triste de todas as mulheres.






Que só, de ti, me venha magoa e dor



O que me importa a mim? O que quiseres



É sempre um sonho bom! Seja o que for,



Bendito sejas tu por mo dizeres!






Beijá-me as mãos, Amor, devagarinho...



Como se os dois nascessemos irmãos,



Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho...






Beija-mas bem!... Que fantasia louca



Guardar assim, fechados, nestas mãos,



Os beijos que sonhei pra minha boca!...