segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Anjo Vermelho



Naquele anjo tinha vermelho. Por nenhum motivo poderia ser batom, ou estampa floral. Nada disso. Uma coisa que, por fim, acumulava-se em poças de sangue. Seus pés... nem mesmo estes o encontravam. Força do hábito. Uma aparência escurecida transparecia em todo e qualquer caso investigativo, ou de um vil assassino. Prostitutas, traficantes, homossexuais... um ambiente produtor de crimes, até mesmo... uma mente fria? Quem sabe. Mas... Como poder ignorá-la? Pareciam um pouco azuis, quase claros, só não tão especiais quanto uma vagina aloirada. Um pouco mais alto olhava as fendas enormes, seria somente um caso se não regugitasse a palavra “psicopata”. Um relatório policial? Logo viraria capas de revistas! Certamente outro caso de psicólogos: “Quem matou a piranha?” Será o policial Peixoto, único suspeito do local? Acho que não. Com aquela barriga só as cervejas estavam em perigo. Este cadáver incômodo. Claro que não poderia trepar! Por acaso não sentiria vontade se apertasse aquele par de seios? Aqueles dois melões macios que te torturavam desde o momento da entrada? Mas não é assim! É? Foi o que pensei. Ela iria pensar... já não basta ser alcoólatra. Ainda bem que está morta! As sirenes soavam por todo o quarteirão, também os burburinhos lá em baixo. Qual o motivo da raiva? Aquilo era medo, certamente, não queria ter feito, mas, estava muito louco para evitar, uma mesa redonda cheia de pó, o quarto até que tinha jeito. Como é mesmo o nome daquilo? Por alguns momentos os policiais tentam contato pelo rádio, logo estariam na escada. É... os tabefes pareciam ser divertidos. Cachorra! Quem sabe até... não sei. Poderia haver outros encontros. O policial escuta seu nome a porta. - Peixoto! Policial Peixoto! – ficou um momento relutante com quem poderia ser. Isso! Cuspa no chão policial, Peixoto, xingue o infeliz, esse playboyzinho cheio da nota vai te caçar até a morte. - Deixa pra lá, cara. Você está cansado, e não se esqueça do seu coração, já tomou o remédio hoje? – Policial Peixoto! Aqui é o tenente, abra essa maldita porta! – ele tinha comparsas e estavam armados. Droga, Peixoto, assim ta difícil. Esquece esse lance de aposentadoria e dá um jeito nesses caras. - Vamos parar de amolação e abre logo. – ele abriu. Olha que corpo lindo eles estão olhando, Peixoto, nem sua mulher tem o corpo assim. Claro que não. Ela só tem umas próteses que você ainda está pagando, aliás, ficaram horríveis. Tudo torta, tudo exagerado. Mas, você gosta de morder aquelas borrachas, claro né, sua queridinha esposa. Após tirarem o nó do pescoço o corpo desceu. Cadeiras foram postas para tirarem a vítima. Nenhuma palavra, só um olhar cabisbaixo. – O que é que aconteceu aqui? Eu vi que você não tira os olhos da vítima.

- Na verdade... dos peitos.

- Hum... dos peitos também! E então! O que você acha, que houve? – Ele não acreditava estar tendo aquele tipo de conversa na frente de um cadáver. - Será que estaria muito cansado para um café? Pega o dinheiro lá na cozinha, mas vê se não demora se não eu te prendo por desacato! Eles riram. O dinheiro estava próximo ao fogão, era o único remédio para se safar, já que as idéias não estavam ajudando. Pegou uma luvinha com um dos investigadores e abriu a válvula.

ANA LÚCIA


- Será você, querida?Que peitinho doce. Não mais que Ana Lúcia naquela calcinha de renda. Beleza européia. Seria a maquiagem borrada ou o cabelinho de puta. – Nossa! Que boca linda! - lá em casa nas paredes solitárias, nenhuma saia, mas olhos claros e música boêmia. De noite, tem noite que seu fantasma vaga pelo corredor feito fantasma de cemitério. – Amor... tire a calcinha. Quero cheirar essa coisinha. – mas que delícia essa Ana Lúcia. Ela fazia de tudo. Deusa nos lençóis, ou filha da perdição, não sabe do amanhã. Fim de noite, não sei mais como agradar essa mulher. Nada de festinhas, todas foram experimentadas. Mas a desgraçada ficava com beijinhos no pescoço. Não era como as outras. Tomamos os mesmos trajetos quando já não havia gritos e vaidades. Eu com a coragem dos pervertidos e ela com sua liberdade colegial. Também freqüentávamos os mesmos bares para a minha alegria, tinha até umas amigas. Não eram como ela. Passos levam ao castigo de rua, rua triste, casas solitárias e um velho ainda mais. Subo as calças sem erguer o olhar cuidadoso, preso um cinto meio claro. Entre o sol da manhã criaturas escandalosas, cantam, vendem e até riem feito pessoas, e... também tem aqueles que chegam perto, eles dizem qualquer coisa. Por isso o meu bigode! Como a casa as janelas ficam visíveis. Agora sabem o que faço. Se uso camisa para fumar, ou se tenho alguma a quem recorrer. Maldita cidadezinha. Sabem que como puta, e elas também sabiam disso. Ultimamente só uma, aquela do peitinho doce. Ah! Que mulher! Que corpo o da Ana Lúcia, toda lisinha, fazia o tipo jovial. Nunca tinha pegado uma. Não sabia o quanto era boa a japinha.

P. Viajei

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Rita ao meio dia


Surge um isqueiro e a vontade lhe ataca. Lá estava, portando um rouge vibrante pelas ruas de São Paulo. Trazia também um olhar distante e pensativo, parecido com o de quem procura algo, mas ali naquele mar de pernas e luzes, nada além de espera. Calculava ter nome de idoso já que se tratava de um bairro nobre. Joaquim, esse era o nome no celular, ao negociá-la balançava a cabeça afirmativamente propondo mais de uma. O cara sentia calafrios com mulheres, imagine só o que elas fariam. Rita e mais uma. Primeiro iriam mostrar o equipamento, fora os piercings e tatuagens, mas um corpinho adolescente na mais pura flor, nada que não fosse novidade. No lugar só davam as melhores, as mais belas e caras rameiras paulistas, algumas meio rock n’ roll com uns lances masoquistas. Agora ela... a lésbica, seria o grande trunfo, uma que posava de santa e até tinha a cara. Quem é que não sabe o que dizem dos tímidos? Sexo é o limite! Rita também tinha isso, só não passava a eternidade. Dormiriam? Talvez... só o bolso determinava. Elas sabem, inclusive, da importância de um bom sexo, que eram raros os orgasmos, mas... já não davam importância, logo saberiam elas que dividiriam olhares e um pouco de carícias. Vivem num bairro de belos saltos, saltos compridos e que fazem barulho, gostam disso, não havia como não olharem, ainda mais com aquela mini saia e o decote da amiga, somente a essência de primavera impregnando a beleza, são todas assim. Enquanto não chegava, Rita pensava no cliente, se velho demais, ou com um jeitão mais jovial do tipo, galã de cinema. Pensava também em empurrar a amiga caso não gostasse, esse era o combinado. Já a outra queria que fosse casado, tivesse uma senhora quarentona e moderninha, piercings nos mamilos, e aquela modinha dos anos 30, entretanto, não curtia esse lance de dividir a transa, achava meio bizarro e um tanto antiético, tirara isso do curso de direito. Apesar da aparência freqüentava algumas aulas, presente de um diretor. Outros retoques no final da escada, raramente tinham essa mania de perfeição, dependendo de quem fosse o cliente, seria até necessário uma depilação, esse pediu duas, uma já ajeitava o piercing do clitóris, era o mínimo a se fazer. Chegaram à porta. Olharam em volta das luminárias para ver se espiavam, viram que não, guardaram as maquiagens e ajeitaram os cabelos tendo e mente um último momento antes do serviço. Esperaram após a batida que presenciava alguns ruídos de dentro do apartamento. Sabiam de sua perversão, algumas das clientes eram suas amigas, tinham tudo para proporcionar uma noite infalível. Camisa aberta e barriga exagerada, totalmente desproporcional ao corpo, certamente bebia cerveja. A expressão pálida e mal humorada começara a mudar na presença dos lindos seios ali na porta, seriam claros feito a lua. Os de uma podiam ser rosados, já os da outra nem tanto, mas tinham talento. Até generosos se não me engano, mas aquelas bundas eram inconfundíveis, só podiam ser brasileiras. - Fenomenal! - Dizia o cliente. Viram o restante da sala enquanto o cliente exibia uma correntinha no pescoço, correntinha com um traço religioso, outros tinham lá suas preferências, mas a correntinha na cama era uma das coisas mais detestantes, ela batia na cara depois de um tempo. Pior seria um peito peludo e suado, no caso dele seriam pêlos brancos. Só prestaria para mostrar a idade. A tensão no lugar era evidente, onde estaria a empregada? Certamente teria empregada. Empregadas geralmente negam dar pro patrão, mas quando o cara é solitário também é cara de pau. Rita já foi, ou deveria ter sido empregadinha de alguém, homens são bem nojentos quando o assunto é doméstica, só ganhava aumento se desse pro patrão. Não sabia se a função estava mais pro quarto ou pro restante da casa. Felizmente isso favoreceu sua carreira, logo a patroa descobriu. Rita refletia quanto a isso. Solidão da companhia, solidão dos prazeres, não eram somente paredes claras ou uma espécie de carpete, mas um nojo de ganhar a vida. Naquilo ela estava certa. Sentia isso e outras coisas também. Pele úmida, não era visível, se bem que estimulante se tivesse a bebida, respondida ao também domínio do prazer. Estimava a companhia, estaria sobre elas naquela noite, sobre a saia vermelha e o decote mal intencionado, totalmente iluminadas pela beleza e pelos bares de Blues ali do lado, nem sequer uma lâmpada acesa. Sabia ela, Rita, que aquela não era de importância, fazia até com convidados se deixasse, procurava agradar a todos, só ela e seu pentelho, seja onde estivesse, ou com quem, assim nos motéis e ainda mais em banheiros públicos. Alguns se surpreendem, mas agora só o velho, na surpresa que o encara, ruídos de MPB. Se atreve deixando-as abertas, antecipava algumas tatuagens nas brancas pernas de toda São Paulo. Rita vê e lança um sorriso, prefere terminar o drink. Surpreende-se quando o velho cai de joelhos, tudo o que ela queria era bancar a sacana, - Não! Primeiro comece pelos pés – o coitado o fez. Tirou a meia negra e subiu por toda a extensão de seu corpo, o delírio foi maior com o amontoado negro, mais negro que as meias, topou com a língua, incrível era ela, toda escuridão. Qual vagina não se saciaria com tamanho desejo, somente uma dona insaciável. Não deixe seus lábios vermelhos no cigarro ainda aceso. – Dizia a canção. Numa voz suave e que só faziam gemidos, podia ser Rita, mas as pernas faziam um bom serviço, semi-abertas aos agrados, somente uma boca de querubim. Ao revelar da volúpia, Rita lança longos olhos de fúria, parecido com o hábito de sempre. Tornavam os lábios a se encostarem enquanto os seios eram consumidos por um arrepio curioso. Esperava os longos minutos de gemidos e palavrões, barulhos de móveis e exageros de lésbica. Solitária e também insana, tinha apenas a garrafa de uísque enquanto eles, as mais loucas orgias. Se manifestou. Não deixou que acabassem. Enquanto uma preparava-se para nova posição, a outra exasperou-se parecendo um animal no cil, não pensou, postou-se na a mesa como uma refeição, totalmente de quatro e com o ânus a mostra. – Vem! É isso que você quer porra! Larga essa magrela. - A do sofá até se impressionou e com raiva sacudiu seu cabelinho preto, fazer melhor, eu? Pensou. Não havia nada melhor que as loucuras de Rita, nada mais impressionante que aquela posição. Logo os dois enlouqueceram, sentiram-se no paraíso. Rita com uma língua na sua imensidão anal, e o outro saboreando a mais exótica brasilidade. Tamanha foi a vontade que... não demorou muito para todos se juntarem. Estava perfeito, as roupas arremessadas e os olhos adormecidos em um... em um...

terça-feira, 17 de agosto de 2010

uivo - Allen Ginsberg



Uivo
para Carl Solomon



Eu vi os expoentes de minha geração destruídos pela loucura,

morrendo de fome, histéricos, nus,

arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca

de uma dose violenta de qualquer coisa,

"hipsters" com cabeça de anjo ansiando pelo antigo contato

celestial com o dínamo estrelado da maquinaria da noite,

que pobres, esfarrapados e olheiras fundas, viajaram fumando

sentados na sobrenatural escuridão dos miseráveis aparta-
mentos sem água quente, flutuando sobre os tetos das
cidades contemplando jazz,

que desnudaram seus cérebros ao céu sob o Elevado e viram

anjos maometanos cambaleando iluminados nos telhados
das casas de cômodos,

que passaram por universidades com os olhos frios e radiantes

alucinando Arkansas e tragédias à luz de William Blake
entre os estudiosos da guerra,

que foram expulsos das universidades por serem loucos e publi-

carem odes obscenas nas janelas do crânio,

que se refugiaram em quartos de paredes de pintura descasca-

da em roupa de baixo queimando seu dinheiro em cestas
de papel, escutando o Terror através da parede,

que foram detidos em suas barbas públicas voltando por Laredo

com um cinturão de marijuana para Nova York,

que comeram fogo em hotéis mal-pintados ou beberam tereben-

tina em Paradise Alley, morreram ou flagelaram seus tor-
sos noite após noite

com sonhos, com drogas, com pesadelos na vigília, álcool e cara-

lhos e intermináveis orgias,

incomparáveis ruas cegas sem saída de nuvem trêmula e clarão

na mente pulando nos postes dos pólos de Canadá & Pa-
terson, iluminando completamente o mundo imóvel do
Tempo intermediário,

solidez de Peiote dos corredores, aurora de fundo de quintal
com verdes árvores de cemitério, porre de vinho nos te-
lhados, fachadas de lojas de subúrbio na luz cintilante de
neon do tráfego na corrida de cabeça feita do prazer, vi-
brações de sol e lua e árvore no ronco de crepúsculo de
inverno de Brooklin, declamações entre latas de lixo e a
suave soberana luz da mente,
que se acorrentaram aos vagões do metrô para o infindável

percurso do Battery ao sagrado Bronx de benzedrina até
que o barulho das rodas e crianças os trouxesse de volta,
trêmulos, a boca arrebentada e o despovoado deserto do
cérebro esvaziado de qualquer brilho na lúgubre luz do Zôo-
lógico,

que afundaram a noite toda na luz submarina de Bickford's,

voltaram à tona e passaram a tarde de cerveja choca no
desolado Fugazzi's escutando o matraquear da catástrofe
na vitrola automática de hidrogênio,

que falaram setenta e duas horas sem parar do parque ao apê ao

bar ao hospital Bellevue ao Museu à Ponte de Brooklin,

batalhão perdido de debatedores platônicos saltando dos gra-

dis das escadas de emergência dos parapeitos das janelas
do Empire State da lua,

tagarelando, berrando, vomitando, sussurando fatos e lembran-

ças e anedotas e viagens visuais e choques nos hospitais e prisões e guerras,

intelectos inteiros regurgitados em recordação total com os

olhos brilhando por sete dias e noites, carne para a sinago-
ga jogada na rua,

que desapareceram no Zen de Nova Jersey de lugar algum dei-

xando um rastro de cartões postais ambíguos do Centro
Cívico de Atlantic City,

sofrendo amores orientais , pulverizações tangerianas nos ossos

enxaquecas da China por causa da falta da droga no
quarto pobremente mobiliado de Newark,

que deram voltas e voltas à meia-noite no pátio da estação fér-

roviária perguntando-se onde ir e foram, sem deixar cora-
ções partidos,

que acenderam cigarros em vagões de carga, vagões de carga,

vagões de carga que rumavam ruidosamente pela neve
até solitárias fazendas dentro da noite do avô,

que estudaram Plotino, Poe, São João da Cruz, telepatia e

bop-cabala pois o Cosmos instintivamente vibrava a seus
pés em Kansas,

que passaram solitários paelas ruas de Idaho procurando anjos

índios e visionários,

que só acharam que estavam loucos quando Baltimore apareceu

em êxtase sobrenatural,

que pularam em limusines com o chinês de Oklahoma no impul-

so da chuva de inverno na luz da rua da cidade pequena
à meia-noite,

que vaguearam famintos e sós por Houston procurando jazz

ou sexo ou rango e seguiram o espanhol brilhante para
conversar sobre América e Eternidade, inútil tarefa, e
assim embarcaram num navio para a África,

que desapareceram nos vulcões do México nada deixando

além da sombra das suas calças rancheiras e a lava e a
cinza da poesia espalhadas na lareira de chicago,

que reapareceram na Costa Oeste investigando o FBI de barba e

bermudas com grandes olhos pacifistas e sensuais nas suas
peles morenas, distribuindo folhetos ininteligíveis,

que apagaram cigarros acesos nos seus braços protestando contra

o nevoeiro narcótico de tabaco do capitalismo,

que distribuíram panfletos supercomunistas em Union Suare,

chorando e despindo-se enquanto as sirenes de Los Alamos
os afugentavam gemendo mais alto que eles e gemiam
pela Wall Street e também gemia a balsa da Staten Is-
land,

que caíram em prantos em brancos ginásios desportivos, nus e

trêmulos diante da maquinaria de outros esqueletos,

que morderam policiais no pescoço e berraram de prazer nos

carros de presos por não terem cometido outro crime a não
ser sua transação pederástica e tóxica,

que uivaram de joelhos no Metrô e foram arrancados do telha-

do sacudindo genitais e manuscritos,

que se deixaram foder no rabo por motociclistas santificados e

urraram de prazer,

que enrabaram e foram enrabados por estes serafins humanos, os

marinheiros, carícias de amor atlântico e caribeano,

que transaram pela manhã e ao cair da tarde em roseirais, na

grama de jardins públicos e cemitérios, espalhando livre-
mente seu sêmem para quem quisesse vir,

que soluçaram interminavelmente tentando gargalhar mas acaba-

ram choramingando atrás de um tabique de banho turco
onde o anjo loiro e nu veio atravessá-los com sua espada,

que perderam seus garotos amados para as tres megeras do destino,

a megera caolha do dólar heterossexual, a megera caolha que pisca de dentro do ventre e a megera caolha que só sabe ficar plantada sobre sua bunda retalhando os dourados fios do tear do artesão,

que copularam em êxtase insaciável com uma garrafa de cerveja,

uma namorada, um maço de cigarros, uma vela, e caíram da cama e continuaram pelo assoalho e pelo corredor e terminaram desmaiando contra a paerede com uma visão da buceta final e acabaram sufocando um derradeiro lampejo de consciência,

que adoçaram trepadas de um milhão de garotas trêmulas

ao anoitecer, acordaram de olhos vermelhos no dia seguin-
te mesmo assim prontos para adoçar trepadas na aurora, bundas luminosas nos celeiros e nus no lago,

que foram transar em Colorado numa miríade de carros roubados

à noite, N.C. herói secreto destes poemas , garanhão
e Adonis de Denver - prazer ao lembrar de suas incontáveis
trepadas com garotas em terrenos baldios e pátios dos
fundos de restaurantes de beira de estrada, raquíticas filei-
ras de poltronas de cinema, picos de montanha, cavernas
ou com esquálidas garçonetes no familiar levantar de saias
solitário á beira da estrada & especialmente secretos solip-
sismos de mictórios de postos de gasolina & becos da cidade
natal também,

que se apagaram em longos filmes sórdidos, foram transportados

em sonho, acordaram num Manhattan súbito e consegui-
ram voltar com uma impiedosa ressaca de adegas de
Tokay e o horror dos sonhos de ferro da Terceira Aveni-
da & cambalearam até as agências de emprego,

que caminharam a noite toda com os sapatos cheios de sangue

pelo cais coberto por montões de neve, esperando que
se abrisse uma porta no East River dando num quarto
cheio de vapor e ópio,

que criaram grandes dramas suicidas nos penhascos de aparta-

mentos de Hudson à luz de holofote anti-aéreo da lua &
suas cabeças receberão coroa de louro no esquecimento,(...)


Allen Ginsberg



sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Gregory Corso

CASA NATAL REVISITADA





Fico na luz escura da rua escura

e olhos para cima para a minha janela, nasci ali.

As luzes estão acesas; outra gente anda por lá.

Estou de gabardina; cigarro na boca,

cabelo para os olhos, mão na garganta.

Atravesso a rua e entro no prédio.

Os caixotes do lixo continuam a cheirar mal.

Subo ao primeiro andar; Orelhas Sujas

aponta-me uma faca...

eu tactei-o cheio de relógios perdidos









Minha decência


Minha decência

Minha decência não é inocência
inconfidência mamadeira
traz rapadura pras cachorras
caiu com o bicho de pé da sola
Tio Barnabé bebeu café branco
usou tamanco branco no ano branco
Nega Jurema meteu a mão boba
no bolso caído às velhotas.

P.Viajei


terça-feira, 10 de agosto de 2010

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Lawrence Ferlinghetti




O OLHO DO POETA OBSCENO VENDO...

O olho do poeta obsceno vendo
vê a superfície do mundo redondo
com seus telhados bêbados
e pássaros de pau nos varais
e suas fêmeas e machos feitos de barro
com pernas em fogo e peitos em botão
em camas rolantes
e suas árvores de mistérios
e seus parques de domingos no parque e
estátuas sem fala
e seus Estados Unidos
com suas cidades fantasmas e Ilhas Ellis vazias
e sua paisagem surrealista de
pradarias estúpidas
supermercados subúrbios
cemitérios com calefação
e catedrais que protestam
um mundo à prova de beijo um mundo de
tampas de privada e táxis
caubóis de butique e virgens de Las Vegas
índios sem terra e madames loucas por cinema
senadores anti-romanos e conformistas
[ conformados
e todos os outros fragmentos desbotados
do sonho imigrante real demais
e disperso
entre esse pessoal que toma banho de sol



Trad. Paulo Leminski

..

domingo, 6 de junho de 2010

Bruna

Algo que me fizesse
sentir o poder imenso
é logo em ti o sabor penetrante
que se anima em pequenos pés
sugando-lhe toda a sustentação
e viaja sobre macios degraus depilados
banhados da mais fina flor
e encontra um túnel profundo
tão sujo quanto as palavras que vos revelo,
buraco que regojita tão asqueroso pranto
que o odor é mais exótico que a primavera
por isso os lábios nos labios
revelam ardor
ardor
ardor...

P.Viajei

sábado, 10 de abril de 2010

Walt Whitman






Uma canção da Califórnia,
Uma profecia e dissimulação, um pensamento tão impalpável para respirar quanto o ar,
Um coro de dríades, desfalecendo, partindo, ou hamadríades partindo,
Uma voz murmurante, decisiva, gigante, desde a terra e céu,
Voz de uma poderosa árvore moribunda na densa floresta de sequóia.
Adeus meus irmãos,
Adeus Oh terra e céu, adeus a vós águas vizinhas,
Meu tempo findou, meu prazo chegou,
.
Pelo litoral norte,
Um pouco afastado da praia rodeada de rochas e cavernas,
No ar salino do mar no condado de Mendocino,
Com as vagas como base e acompanhamento baixo e rouco,
Com crepitantes golpes de machados soando musicalmente acionados por braços fortes,
Fendida fundo pelas línguas afiadas dos machados, lá na floresta densa de sequóia,
Ouvi a poderosa árvore cantando seu canto de morte.
.
Os cortadores não ouviram, as choças e cantigas do acampamento não ecoaram,
Os carreteiros de ouvido apurado e os carregadores de corrente e macaco de rosca não ouviram,
Quando os espíritos da floresta vieram de seus refúgios de mil anos para unir-se ao refrão,
Mas em minha alma eu ouvi claramente.
.
Murmurando desde sua miríade de folhas,
Do seu altivo topo se erguendo a duzentos pés de altura,
De seu tronco robusto e membros, de sua casca espessa,
Aquele canto das estações e tempo, canto não só do passado mas do futuro.
Tu minha vida inarrada,
E todos vós veneráveis e inocentes júbilos,
Minha vida resistente e perene com júbilos em meio à chuva e muitos sóis de verão,
E as brancas neves e noite e os ventos bravios;
Ah os grandes júbilos ásperos pacientes, os fortes júbilos de minha alma impensados pelo homem,
(Pois saibas que carrego a alma adequada a mim, também tenho consciência, identidade,
E todas as pedras e montanhas têm, e toda a terra,)
Júbilos da vida adequados a mim e meus irmãos,
Nosso tempo, nosso prazo chegou.
Nem nos rendemos tristemente majestosos irmãos,
Nós que preenchemos grandiosamente nosso tempo;
Com o calmo contentamento da Natureza, com enorme deleite tácito,
Nós acolhemos o que forjamos no passado,
E deixamos o campo para eles.
Para eles previstos há tempos,
Para uma raça mais soberba, para eles também grandiosamente preencher seu tempo,
Por eles abdicamos, neles nós mesmos vós reis da floresta!
Neles estes céus e ares, estes picos de montanhas, Shasta, Nevadas,
Estes enormes penhascos escarpados, esta amplidão, estes vales, Yosemite distante,
Para neles ser absorvidos, assimilados.
.
Então a uma tensão mais elevada,
Ainda mais orgulhoso, mais extático se ergueu o canto,
Como se os herdeiros, as deidades do Oeste,
Acompanhando com língua magistral tomassem parte.
Nem pálidas dos fetiches da Ásia,
Nem vermelhas do antigo matadouro dinástico da Europa,
(Área de tramas assassinas de tronos, ainda com sobra do cheiro de guerras e patíbulos em todos os lugares,)
Mas vindas dos longos e inofensivos estertores da Natureza, construídas pacificamente daí,
Estas terras virgens, terras da costa Ocidental,
Para o novo homem culminante, pra ti, o império novo,
Tu há tempos prometido, empenhamos, dedicamos.
Vós profundas volições ocultas,
Tu masculinidade espiritual média, propósito de tudo, pairando em ti mesma, concedendo não tomando lei,
Tu divina feminidade, senhora e fonte de tudo, origem de vida e amor e o que vem de vida e amor,
Tu essência moral invisível de todos os vastos materiais da América,
(era após era trabalhando na morte como na vida,)
Tu que, às vezes conhecido, com mais freqüência desconhecido, realmente forma e modela o Novo Mundo, ajustando-o ao Tempo e Espaço,
Tu vontade nacional escondida estendida em teus abismos, oculta mas sempre alerta,
Vós propósitos passados e presentes tenazmente perseguidos, talvez inconscientes de vós mesmos,
Inabalados por todos os erros fugazes, perturbações da superfície;
Vós germes vitais, universais, imortais, sob todos os credos, artes, estatutos, literaturas,
Aqui construís vossos lares para sempre, estabeleçam-se aqui, estas áreas inteiras, terras da costa Ocidental,
Nos empenhamos, dedicamos a vós.
Pois vosso homem, vossa raça característica,
Aqui pode ele crescer árduo, doce, gigantesco, aqui se elevar proporcional à Natureza,
Aqui galgar os puros espaços vastos inconfinados, irreprimidos por parede ou telhado,
Aqui rir com procela ou sol, aqui júbilo, aqui pacientemente se habituar,
Aqui ouvir-se, desdobrar-se, (não ouvir fórmulas de outros,) aqui preencher seu tempo,
Propriamente cair, auxiliar, impensado por fim,
Desaparecer, servir.
.
Assim no litoral norte,
No eco dos chamados de carreteiros e das correntes tilintantes, e a música dos machados de cortadores,
O tronco e os ramos cadentes, o estrondo, o guincho abafado, o gemido,
Tais palavras combinadas da sequóia, como de vozes extáticas, antigas e bulhentas,
As dríades seculares, invisíveis, cantando, recuando,
Deixando todos seus recessos de florestas e montanhas,
Da cordilheira de Cascade até a de Wahsatch, ou Idaho distante, ou Utah,
Às deidades do moderno doravante se rendendo,
O coro e as indicações, as perpesctivas da humanidade vindoura, as colônias, todos aspectos,
No bosque de Mendocino peguei.
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O flamejante cortejo dourado da Califórnia,
O drama súbito e suntuoso, as terras ensolaradas e amplas,
O trecho longo e variado do estreito de Puget até o Colorado meridional,
Terras banhadas em ar mais doce, mais raro, mais saudável, vales e penhascos montanhosos,
Os campos da Natureza há muito preparados e incultos, a química cíclica, silenciosa,
As eras lentas e regulares mourejando, a superfície desocupada maturando, os ricos minérios se formando abaixo;
Por fim o Novo chegando, assumindo, tomando posse,
Uma raça pululante e atarefada colonizando e se organizando em todos os lugares,
Navios vindo de todo este redondo mundo, e saindo para o mundo inteiro,
Para a Índia e China e Austrália e as mil ilhas paradisíacas do Pacífico,
Cidades populosas, as últimas invenções, os vapores nos rios, as ferrovias, com muita fazenda florescente, com maquinaria,
E lã e trigo e a uva, e escavações de ouro amarelo.
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3
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Mas mais em ti que estas, terras da costa Ocidental,
(Estas só os meios, os implementos, o terreno fixo,)
Vejo em ti, certo por vir, a promessa de milhares de anos, até agora adiada,
Prometida para ser cumprida, nossa espécie comum, a raça.
.
A nova sociedade por fim, proporcional à Natureza,
Em teus homens, mais que em teus picos de montanha ou árvores robustas imperiais,
Na mulher mais, muito mais, que todo teu ouro ou videiras, ou mesmo o ar vital.
.
Recém vindo, a um novo mundo de fato, porém há muito preparado,
Vejo o gênio do moderno, filho do real e ideal,
Desbravando o território para a ampla humanidade, a verdadeira América, herdeira de tão grandioso passado,
Para construir um futuro mais grandioso.

Walt Whitman

Uma Canção de Júbilos
.
Oh criar a canção mais jubilosa!
Cheia de música—cheia de masculinidade, feminidade, infância!
Cheia de ocupações comuns—cheia de cereais e árvores.
.
Oh pelas vozes de animais—Oh pela presteza e proporção dos peixes!
Oh pelo verter de gotas de chuva em uma canção!
Oh pela luz do sol e impulso de ondas em uma canção!
.
Oh o júbilo de meu espírito—ele está desenjaulado – ele dispara feito raio!
Não é o bastante ter este globo ou um certo tempo,
Terei milhares de globos e todo tempo.
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Oh os júbilos do engenheiro! andar numa locomotiva!
Ouvir o silvo do vapor, o guincho alegre, o apito a vapor, a hílare locomotiva!
Impulsionar sem resistência e acelerar na distância.
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Oh o alegre passeio nos campos e encostas!
As folhas e flores das ervas daninhas mais comuns, a quietude fresca úmida dos bosques,
O agudo aroma da terra na aurora, e por toda a manhã.
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Oh o júbilo do cavaleiro e amazona!
A sela, o galope, a pressão no assento, o fresco jorrar nas orelhas e cabelos.
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Oh o júbilo do bombeiro!
Ouço o alarme no meio da madrugada,
Ouço sinos, gritos! Passo a multidão, corro!
A visão das chamas me enlouquece de prazer.
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Oh o júbilo do vigoroso lutador, altaneiro na arena em condição perfeita, consciente do poder, sedento por conhecer seu oponente.
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Oh o júbilo dessa vasta solidariedade essencial que só a alma humana é capaz de gerar e emitir em fluxos estáveis e ilimitados.
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Oh o júbilo da mãe!
A vigilância, a resistência, o amor precioso, a angústia, a vida pacientemente concedida.
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Oh o júbilo do aumento, crescimento, recuperação,
O júbilo de acalmar e pacificar, o júbilo de concórdia e harmonia.
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Oh voltar ao lugar onde nasci,
Ouvir os pássaros cantar uma vez mais,
Vaguear pela casa e galpão e pelos campos uma vez mais,
E no pomar e pelas velhas veredas uma vez mais.
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Oh ter sido criado em baías, lagunas, riachos, ou no litoral,
Continuar e ser empregado lá toda a minha vida,
O cheiro salobro e úmido, a praia, as algas salgadas expostas na maré baixa,
O trabalho de pescadores, o trabalho do pescador de enguia e do marisqueiro;
Venho com meu ancinho e pá, venho com meu arpão,
A maré está baixa? Eu me junto ao grupo de catadores de marisco nos baixios,
Rio e trabalho com eles, gracejo no meu trabalho como um jovem brioso;
No inverno pego minha cesta e arpão de enguia e viajo a pé no gelo—tenho um machadinho para fazer buracos no gelo,
Vede me bem-trajado indo jovialmente ou retornando à tarde, meu bando de rudes rapazes me acompanhando,
Meu bando de rapazes meio-maduros e maduros, que não adora estar com ninguém mais tão bem quanto adora estar comigo,
De dia trabalhar comigo, e de noite dormir comigo.
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Uma outra vez em tempo quente num barco, erguer os cestos de lagosta onde estão afundados com pedras pesadas, (conheço as bóias,)
Oh a doçura da manhã do Quinto mês sobre a água quando remo logo antes da aurora para as bóias,
Puxo os cestos de vime para cima obliquamente, as lagostas verde-escuras estão desesperadas com suas garras quando as tiro, insiro cavilhas de madeira nas juntas de suas quelas,
Vou a todos os lugares um após o outro, e aí remo de volta à praia,
Lá num enorme caldeirão de água fervente as lagostas serão fervidas até sua cor se tornar escarlate.
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Uma outra vez pegando cavalinha,
Vorazes, loucas pelo anzol, perto da superfície, parecem preencher a água por milhas;
Uma outra vez pescando serranídeos na baía de Chesapeake, eu parte da tripulação bronze-faceada;
Uma outra vez rastreando enchova em Paumanok, me posto com o corpo preparado,
Meu pé esquerdo está na amurada, meu braço direito lança ao longe os rolos de corda leve,
À vista a meu redor as rápidas guinadas e arranques de cinqüenta esquifes, meus companheiros.
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Oh navegando nos rios,
A viagem descendo o São Lourenço, a paisagem soberba, os vapores,
Os navios navegando, as Mil Ilhas, a jangada de madeira ocasional e os jangadeiros com longos remos,
As pequenas cabanas nas jangadas, e a névoa de fumaça quando preparam ceia à noite.
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(Oh algo pernicioso e terrível!
Algo distante de uma vida débil e devota!
Algo não provado! algo num transe!
Algo escapado da ancoragem e seguindo livre.)
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Oh trabalhar em minas, ou forjando ferro,
Fundição fundindo, a própria fundição, o telhado alto e rude, o espaço amplo e sombreado,
A fornalha, o líquido quente despejado e escorrendo.
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Oh retomar o júbilo do soldado!
Sentir a presença de um valente oficial comandante—sentir sua solidariedade!
Ver sua calma—ser aquecido nos raios de seu sorriso!
Ir pra batalha—ouvir as cornetas tocar e os tambores rufar!
Ouvir o estrondo da artilharia—ver o brilho das baionetas e os canos dos mosquetes ao sol!
Ver homens tombar e morrer e não reclamar!
Provar o gosto selvagem de sangue—ser tão satânico!
Se regozijar sobre as feridas e mortes do inimigo.
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Oh o júbilo do baleeiro! Oh navego minha velha viagem de novo!
Sinto o movimento do navio sob mim, sinto as brisas Atlânticas me bafejando,
Ouço de novo o grito vindo do topo do mastro, Lá—ela sopra!
De novo pulo o cordame para olhar com os demais—descemos, ansiosos com a agitação,
Salto no barco baixado, remamos rumo à nossa presa aonde ele jaz,
Nos aproximamos furtivos e silenciosos, vejo a massa montanhosa, letárgica, exposta ao sol,
Vejo o arpoador se erguendo, vejo a arma partir de seu braço vigoroso;
Oh veloz de novo distante no oceano a baleia ferida, serenando, correndo a barlavento, me reboca,
De novo o vejo subir pra respirar, remamos perto de novo,
Vejo uma lança enfiada em seu flanco, pressionada fundo, girada na ferida,
De novo nos retiramos, o vejo serenar de novo, a vida o está deixando rápido,
Quando sobe ele esguicha sangue, o vejo nadar em círculos cada vez mais estreitos, cortando a água veloz—o vejo morrer,
Ele dá um salto convulsivo no centro do círculo, e então fica prostrado e imóvel na espuma sangrenta.[1]
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Oh minha velha virilidade, meu mais nobre júbilo!
Meus filhos e netos, meu cabelo branco e barba,
Minha grandeza, calma, majestade, na longa extensão de minha vida.
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Oh júbilo maduro da feminidade! Oh felicidade afinal!
Tenho mais de oitenta anos de idade, sou a mais venerável mãe,
Como é clara minha mente—como todas as pessoas se achegam a mim!
Que atrações são estas além das anteriores? o que floresce mais que a flor da juventude?
Que beleza é esta que desce sobre mim e se eleva de mim?
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Oh o júbilo do orador!
Inflar o tórax, rolar o trovão da voz das costelas e garganta,
Fazer o povo se enfurecer, lamentar, odiar, desejar, contigo,
Conduzir a América—dominar a América com uma grande língua.
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Ah o júbilo de minha alma pairada sobre si mesma, recebendo identidade através de materiais e os amando, observando caracteres e os absorvendo,
Minha alma vibrou de volta a mim deles, da visão, audição, tato, razão, articulação, comparação, memória, e assim por diante,
A vida real de meus sentidos e corpo transcendendo meus sentidos e corpo,
Meu corpo cansado dos materiais, minha visão cansada dos meus olhos físicos,
Provado a mim hoje além de sofismas que não são meus olhos físicos que finalmente vêem,
Nem meu corpo físico que finalmente ama, anda, ri, grita, abraça, procria.
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Ah o júbilo do fazendeiro!
O júbilo do Ohioano, Illinoisiano, Wisconsinês, Kanadiano, Iowano, Kansiano, Missouriano, Oregonês!
Se levantar ao raiar do dia e agilmente ir trabalhar,
Arar terra no outono para culturas semeadas no inverno,
Arar terra na primavera para o milho,
Arrumar pomares, enxertar as árvores, colher maçãs no outono.
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Ah banhar-se na piscina, ou num bom lugar na praia,
Aspergir água! caminhar com água pelos tornozelos, ou correr nu pela praia.
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Ah perceber o espaço!
Ah a plenitude de tudo, que não há limites,
Emergir e ser do céu, do sol e lua e nuvens voadoras, ser um com eles.
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Ah o júbilo de um si mesmo viril!
Ser servil a ninguém, submeter-se a ninguém, a nenhum tirano conhecido ou desconhecido,
Caminhar com postura ereta, um passo flexível e elástico,
Olhar com mirada calma ou com olho cintilante,
Falar com uma voz plena e sonora saindo de um amplo tórax,
Confrontar com tua personalidade todas as outras personalidades da terra.
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Conhece tu o júbilo excelente da juventude?
Júbilo dos queridos companheiros e da palavra feliz e rosto risonho?
Júbilo do dia festivo radiante, júbilo dos jogos de grande fôlego?
Júbilo de doce música, júbilo do salão iluminado e dos dançarinos?
Júbilo da refeição completa, da boa farra e bebida?
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Porém Ah minha alma suprema!
Conhece tu o júbilo do pensamento contemplativo?
Júbilo do coração livre e isolado, do coração terno e sombrio?
Júbilo da caminhada solitária, do espírito reverente mas orgulhoso, do sofrimento e da porfia?
As dores agonísticas, os êxtases, júbilo das solenes reflexões dia ou noite?
Júbilo do pensamento da Morte, as grandes esferas Tempo e Espaço?
Júbilo profético dos melhores e mais elevados ideais de amor, da divina esposa, do doce, eterno, perfeito camarada?
Júbilo todo teu imortal, júbilo digno de ti Oh alma.
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Ah enquanto vivo pra ser o regente da vida, não um escravo,
Encontrar a vida como um conquistador poderoso,
Nem fumos, nem enfado, nem mais queixas ou críticas desdenhosas,
A estas leis orgulhosas do ar, da água e do chão, revelando minha alma interior inexpugnável,
E nada exterior jamais me comandará.
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Pois não só o júbilo da vida canto, repetindo—o júbilo da morte!
Ah o belo toque da Morte, acalmando e entorpecendo alguns momentos, por razões,
Eu mesmo liberando meu corpo excrementoso para ser queimado, ou cedido ao pó, ou enterrado,
Meu corpo real deixado sem dúvida a mim para outras esferas,
Meu corpo vazio nada mais para mim, voltando às purificações, futuros ofícios, usos eternos da terra.
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Ah atrair por mais do que atração!
Como é não sei—porém vê! o algo que não obedece nada mais,
É ofensivo, nunca defensivo—porém como puxa magnético.
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Ah enfrentar grandes desavenças, encontrar inimigos indômitos!
Estar inteiramente sozinho com eles, descobrir o quanto podemos suportar!
Olhar contenda, tortura, prisão, opróbrio popular, cara a cara!
Escalar o cadafalso, avançar para os canos das armas com perfeito desinteresse!
Ser de fato um Deus!
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Ah navegar para o mar em um navio!
Deixar esta intolerável terra estável,
Deixar a mesmice cansativa das ruas, das calçadas e das casas,
Deixar-te Oh terra sólida imóvel, e entrar num navio,
Para navegar e navegar e navegar!
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Ah ter a vida doravante um poema de novo júbilo!
Dançar, bater palmas, exultar, gritar, saltar, pular, rolar, flutuar!
Ser um marinheiro do mundo rumo a todos os portos,
Um navio em si, (vede de fato estas velas que iço ao sol e ar,)
Um veloz e volumoso navio cheio de palavras ricas, cheio de júbilo.

T.S. Eliot












OS HOMENS OCOS



Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada

Fôrma sem forma, sombra sem cor
Força paralisada, gesto sem vigor;

Aqueles que atravessaram
De olhos retos, para o outro reino da morte
Nos recordam - se o fazem - não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.
T.S. Eliot










Florbela Espanca










Amiga






Deixa-me ser a tua amiga, Amor,



A tua amiga só, já que não queres



Que pelo teu amor seja a melhor



A mais triste de todas as mulheres.






Que só, de ti, me venha magoa e dor



O que me importa a mim? O que quiseres



É sempre um sonho bom! Seja o que for,



Bendito sejas tu por mo dizeres!






Beijá-me as mãos, Amor, devagarinho...



Como se os dois nascessemos irmãos,



Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho...






Beija-mas bem!... Que fantasia louca



Guardar assim, fechados, nestas mãos,



Os beijos que sonhei pra minha boca!...






sábado, 20 de março de 2010

CAMINHOS
A
M
I
N
H
O
S
C
CAMINHOS
M
I
N
H
O
S

SOZINHOS

D

I

S

T

A

N

T

E

S

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domingo, 10 de janeiro de 2010

Êta porra


Na minha experiência, mas enfatizo que só falo por mim, o menos satisfatório é mulher com duas mulheres, e o mais satisfatório - suprise! - é duas mulheres com um homem. O ideal é que todo mundo nesse grupo se transe, mas não é indispensável. O indispensável é que as duas mulheres se dêem muito bem, em matéria de rivalidade sejam esportistas, sinceras e gostem e tenham tesão no homem e, um belo dia, decidam transformá0lo em sultão e elas em odaliscas. E, muito preferivelmente, que todos sejam amigos, essa história de que não se pode misturar amizade com sexo é uma maluquice, é precisamente o contrário, meu Deus do ceu. É porque as pessoas envolvem o sexo em tanta merda - mesquinharias, ciúmes, despeitos, inseguranças, disse-me-disse, suspeitas, afirmações de ego, tanta, tanta merda - que fazer sexo com amigo às vezes acaba prejudicando a amizade. Não se oferece merda aos amigos, atentar nisso, os amigos são muito importantes.(...) Indecente é comer pessoas que não seriam nossas amigas. Isso só se admite em raríssimos casos, como, por exemplo para satisfazer uma perversãozinha.



A Casa dos Budas Ditosos(João Ubaldo Ribeiro)