sexta-feira, 7 de abril de 2017

segunda-feira, 20 de março de 2017

As coisas essenciais - Rubem Alves

Leia este poema bem devagar, pois cada imagem merece a preguiça do olhar.
“No mistério do sem-fim
equilibra-se um planeta.
E, no planeta, um jardim
e, no jardim, um canteiro:
no canteiro, uma violeta
e, sobre ela, o dia inteiro
entre o planeta e o sem-fim
a asa de uma borboleta”.
É pequeno, mas diz tudo. Nada lhe falta, Uni-verso. Nenhuma palavra lhe poderia ser acrescentada. Nenhuma palavra lhe poderia ser tirada. Assim se faz um poema, com palavras essenciais. O poema diz o essencial.
O essencial é aquilo que se nos fosse roubado, morreríamos. O que não pode ser esquecido. Substância do nosso corpo e da nossa alma. Por isto as pessoas se suicidam: quando se sentem roubadas do essencial, mutiladas sem remédio, e a vida, então, não mais vale a pena ser vivida.
Os poetas são aqueles que, em meio a dez mil coisas que nos distraem, são capazes de ver o essencial e chamá-lo pelo nome. Quando isso acontece o coração sorri e se sente em paz.
Encontrou aquilo que procurava Kirilov, personagem de Dostoievski assim descreve o encontro com o essencial. “Há momentos em que a gente sente de súbito a presença da harmonia eterna. É um sentimento claro, indiscutível, absoluto. Apanhamos de repente a natureza inteira e dizemos ‘é exatamente assim!’ É uma alegria tão grande! Se durasse mais de cinco segundos a alma não o suportaria e teria de desaparecer. Nesses cinco segundos vivo uma experiência inteira, e por eles daria toda a minha vida, pois eles bem o valem”.
Chamava-se Norma. Estava doente, muito doente. Na véspera de sua morte, arrastou-se até o banheiro e foi até a pia para lavar-se dos vômitos. Abriu a torneira e a água fria escorreu sobre as suas mãos. Ela parou como que encantada pelo líquido que a acariciava. E de sua boca saíram estas palavras inesperadas: “A água… Como é bela! Sempre que a vejo penso em Deus. Acho que Deus é assim…”.
A morte na pia… A água que escorre… Os olhos contemplam a eternidade… O universo essencial de Norma está cheio de fontes frescas e regatos transparentes onde brincam as suas mãos.
O nome do filme eu nem me lembro. Sei que se passava no Japão, um casal de velhinhos. A esposa havia morrido. Os filhos, reunidos para a divisão das coisas deixadas. De repente percebem uma ausência. O pai, onde estará? Pois não estava ali, entre eles. Depois de uma longa espera aflita, lá vem o seu vulto, banhado pela luz do crepúsculo.
“Papai, onde foi? Estávamos preocupados!”.
“Onde fui? Fui ver o pôr-do-sol. É tão bonito…”.
Os filhos repartem os despojos. Os olhos do pai contemplam o horizonte colorido… O universo essencial do pai está cheio de pores-do-sol. Sem eles os seus olhos ficariam eternamente tristes.
Este poema é de Brecht:
“Quando no quarto branco do hospital
acordei certa manhã
e ouvi o melro, compreendi bem.
Há algum tempo já não tinha medo da morte.
Pois nada me poderá faltar se eu mesmo faltar.
Então consegui me alegrar com todos os cantos dos
melros depois de mim…”.
A morte branca no quarto de hospital. Fora, o melro canta. Alegria pelos cantos que não ouvirei. No universo essencial de Brecht, o canto dos melros continuará, sem fim.
“Pergunto se, depois que se navega,
a algum lugar, enfim, se chega …
O que será talvez até mais triste.
Nem barca, nem gaivota: somente sobre-humanas
companhias…”.
Cecília Meireles sabia o que era essencial. No seu mundo as barcas navegariam as águas e gaivotas planariam pelos ares…
O que é essencial?
Os filósofos antigos reduziam o essencial a quatro elementos fundamentais: a água, a terra, o ar e o fogo. Concordo com eles. Pensavam estar fazendo cosmologia, mas estavam fazendo poesia. Sabiam dos segredos da alma.
Pois é disto que somos feitos. Posso imaginar um mundo sem que eu sinta por isto, nenhuma tristeza especial. Mas não posso pensar um mundo sem a chuva que caí, sem regatos cristalinos, sem o mar misterioso… Não posso imaginar um mundo sem o calor do sol que agrada a pele e colore o poente, sem o fogo que ilumina e aquece… Não posso imaginar um mundo sem o vento onde navegam as nuvens, os pássaros e o cheiro das magnólias…
Não posso imaginar um mundo sem a terra prenhe de vida onde as plantas mergulham suas raízes… São estes os amantes com que a vida faz amor e engravida, de onde brota toda a exuberância e mistério deste mundo, nosso lar. Não preciso de deuses mais belos que estes.
Ouço, pelo mundo inteiro, em meio ao barulho das dez mil coisas que fazem a nossa loucura, as vozes-poema daqueles que percebem o essencial. Elas dizem uma coisa somente: “Este mundo maravilhoso precisa ser preservado”. Mas ouço também a voz sombria dos que perguntam: “Conseguiremos?”.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

quarta-feira, 4 de novembro de 2015


terça-feira, 24 de março de 2015

Passageira



- É assim que nos lidamos com solidão! Primeiro percorremos estradas perdidas atrás de noites inteiras com bebidas e intenso rock and roll! – assim era Stan, um maluco hippie que conhecia a morte mais do que ninguém, mais do que seu próprio inconsciente. Os sonhos, esses nunca se cansavam de atormentá-lo. Às vezes eram lutas com assassinos, acidentes com viajantes na rodovia... simplesmente não ligavam, apenas controlavam-no com suas imagens psíquicas, ele dizia. O que realmente impressionava era o simples fato de existir tamanha quantidade de colegiais naquele pedacinho da América. A em um mesmo posto de combustível, justo o que trabalhava Stan, todos os verões. Todos os anos nessa mesma época, adolescentes percorriam o país atrás de aventuras com seus carros lotados de cervejas e colegiais. Queriam aproveitar, já que a estrada ficava ao lado e... Verdade ou não, sempre estavam lá para ouvirem os conselhos do maluco Stan, que era muito observador quando o assunto era motocicleta, cigarros e as besteiras que dizia antes de seguirem viagem. 
- É! A mulherada se amarra nisso! Fascinavam-se até com minha timidez! Não... mas se tem algo afrodisíaco e com sabor de veneno é o álcool! – continuou com seu amplo raciocínio. – Se você está encarregado das responsabilidades, então estes são seus elos comunicativos! - foi como acontecera antes e em todas as vezes que pediram os conselhos, seguiram viagem, mas sem expectativas. 
- Posso? – disse ela entre um sorriso embaraçoso e o gesto de pegar a cadeira. A cerveja não descansou muito tempo sobre aquela velha mesa encardida em que Stan deixava as ferramentas. – Vejam só! o lobo solitário! – era assim que ela me chamava. Nunca perguntei o motivo, mas ela sabia, sabia de algo que lá no fundo surgia como um futuro vazio e solitário. 
- Amy! Como vai a amiguinha?
- Ainda precisando de alguns reparos, mas... a gente se entende! Nesse momento Amy já observava tudo a sua volta. A cerveja quente de Stan, o óleo derramado dos carros na oficina e até a cara sorridente daquele maluco que não a via a um bom tempo. 
-É! Eu sei! – Amy era de uma dessas tribos das montanhas a quem chamavam de feiticeira, mas seu pai, o grande sábio é quem realmente conhecia os poderes dos deuses antigos.
- E os sonhos? Já procurou respostas? 
- Disseram ser besteira! - ele sabia que Amy era a única que se importava, só não acreditava que ela fosse mencionar em premonições. 
 Você acreditava em premonições? 
- Stan, me escuta! Existe uma lenda antiga de um guerreiro...
- Isso não vai acontecer!
- Olha... a única forma de quebrar o feitiço é encarando a própria morte! É a única saída que você tem! – já num tom severo. – Olha pra você! Um hippie que diz ser paz e amor, mas não segue o próprio caminho. A vida é bem mais que um postinho de gasolina isolado de tudo, você mesmo sabe e eu também sei que desde aquele acidente com a Cindy você nunca mais foi o mesmo! – se os pesadelos fossem uma espécie de aviso ele jamais poderia descartá-los, mesmo se os conselhos tivessem vindo do senhor dos feitiços, pai dos indígenas. 
Uma linda moto verde encheu os olhos daquele lunático quando observou quem estava nela, ao contrário do que se pensava, Amy tinha duas casas e não só uma com o seu povo. Voaram pelo deserto que mais parecia um deserto naquele negrume que fizera a lua, uma escuridão que os levava e ao mesmo tempo os protegia de qualquer desânimo causando uma bela sensação de liberdade. As estrelas e os corpos insanos como os cabelos negros de Amy, aquela também maluca imprevisível. Acho que foi a única vez que haviam lembrando de um sorriso. Foi lá que Amy o deixou sem revelar qual premonição os havia alcançado pela estrada.